Os curandeiros e ervanários manifestam-se preocupados com a extinção de plantas nativas na província de Manica, onde já se regista uma subida do preço de raízes e ervas e outros produtos aos quais se atribuem propriedades medicinais.

Minúsculas barracas de pau e zinco no principal mercado popular e numerosos vendedores ambulantes em esquinas de Chimoio, a capital provincial, já não dispõem de variedades de raízes e plantas raras para a cura de males de amor, maldições e doenças.

“Algumas plantas medicinais estão em extinção, nós começamos a ressentirmo-nos da situação e estamos preocupados com o cenário porque coloca em causa a nossa profissão e a actividade”, disse à Lusa o presidente da Associação de Ervánarios de Moçambique (AERMO) em Manica, Moisés Parange.

Ele reconheceu que a escassez de raízes e plantas começou a encarecer os tratamentos.

Um estudo conjunto sobre conservação de plantas medicinais no país, datado de 2015, da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e o Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT) de Lisboa, avançava que em Moçambique cerca de 15 por cento dos recursos genéticos vegetais (estimados em cerca de 5.500 espécies de plantas) são usados pelas comunidades rurais para fins medicinais e desempenham um papel fundamental nos cuidados de saúde básicos.

A pesquisa alertava para o perigo de extinção de determinadas espécies e apelava para o estabelecimento de um programa de conservação, para recuperar e preservar o remanescente do património.

Dois anos depois, a realidade no terreno começa a ter efeitos sobre os ervanários e curandeiros.

Parange disse que uma política estatal de distribuição de terras a projectos de plantações florestais está a influenciar no “abocanhamento” de matas, reduzindo espaços geográficos para a colheita das plantas e raízes, além da extinção de espécies que perdem habitat para eucaliptos e pinheiros.

As queimadas descontroladas em várias matas, para caça de ratazanas e abertura de machambas (hortas) está também a dizimar muitas plantas medicinais, que agora só são encontradas e zonas longínquas de Manica ou nas províncias vizinhas de Sofala e Tete, acrescentou.

“Algumas pessoas que colhiam e nos vendiam já não trazem certas espécies e quando trazem custam duas ou três vezes o preço anterior. Muitos percorrem longas distâncias, incluindo nas montanhas, para encontrar certas plantas” disse Inês Cameia, médica tradicional, enquanto enumera plantas e raízes em falta na sua farmácia.

Armando Capece, outro médico tradicional, que há 20 anos palmilha matas e montanhas dos distritos de Gondola, Sussundenga e Manica, gasta o dobro ou o triplo do tempo para colher as mesmas quantidades com que cura os seus clientes.

“Agora vou muito longe para colher as plantas”, afirmou ele manifestando-se preocupado com a escassez de plantas e raízes que podem comprometer o trabalho dos ervanários e curandeiros.

Lembrou que na sua farmácia tradicional, numa das movimentadas ruas no mercado “38 milímetros”, onde diariamente atende os seus clientes, já teve uma redução significativa da quantidade de produtos na sequência da escassez das raízes, adensando a procura.

“Você pode ser curandeiro e fazer magias, mas precisa de plantas medicinais para curar. O que cura são plantas e as plantas quando começam a acabar é risco para os doentes e a nossa actividade”, reiterou Moisés Parange, para quem a medicina tradicional tem grande contributo no controlo da saúde publica em Moçambique.

Face à extinção, Parange, que teve a juventude dedicada a descobrir ervas medicinais, começou a colocar plantas na sua horta doméstica, para preservar determinadas espécies raras.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 80 por cento das pessoas nos países em desenvolvimento ainda dependem de plantas locais para satisfazerem as suas necessidades primárias de saúde.

Diário de Moçambique

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