Sociedade Mais de 5,5 milhões de crianças vulneráveis a ciclones em Moçambique

Mais de 5,5 milhões de crianças vulneráveis a ciclones em Moçambique

Um novo relatório do UNICEF e da consultora Dalberg revela que mais de 5,5 milhões de crianças em Moçambique estão em elevada vulnerabilidade a ciclones tropicais.

Esta situação é agravada pelo facto de cerca de 70 por cento das instituições escolares estarem situadas em áreas de alto risco de cheias e tempestades.

A directora regional do UNICEF para a África Oriental e Austral, Etleva Kadilli, destacou que as crianças são as que mais sofrem as consequências de uma crise climática que não provocaram. Este relatório, pela primeira vez, revela a magnitude das perdas e danos relacionados com o clima na educação, embora os impactos sobre os jovens continuem a ser em grande parte negligenciados nas decisões de financiamento.

Segundo o estudo, as catástrofes climáticas já causaram danos directos estimados em cerca de 1,3 mil milhões de dólares nas infra-estruturas escolares da região, afectando a aprendizagem de aproximadamente 130 milhões de crianças. As previsões indicam que essas perturbações poderão representar perdas futuras de rendimento que podem chegar a 140 mil milhões de dólares, podendo atingir 380 mil milhões até 2050, se os fenómenos extremos se intensificarem e afectarem até 520 milhões de estudantes.

Em Moçambique, a concentração de escolas em zonas de risco compromete o acesso a direitos fundamentais como educação, saúde, água potável e saneamento. A intensificação de ciclones, inundações e secas também tem resultado em deslocações populacionais, aumento da desnutrição e maior exposição a doenças de origem hídrica.

Apesar do impacto significativo das mudanças climáticas, a educação recebe menos de 1,5 por cento do total de financiamento global destinado a enfrentar essas questões, deixando o sector exposto a choques frequentes e a uma recuperação morosa das infra-estruturas danificadas.

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O UNICEF sublinha que o fortalecimento da resiliência das escolas é não apenas uma questão de protecção social, mas um investimento com alto retorno económico, prevendo que cada dólar investido pode gerar até 13 dólares em benefícios através da minimização de danos e interrupções, além da continuidade da aprendizagem.

A organização enfatiza que, sem uma priorização maior do financiamento climático, a educação continuará a ser severamente afetada pelos impactos climáticos, resultando em interrupções frequentes.

“O verdadeiro custo das perdas e danos climáticos será medido em potencial humano perdido, se não formos capazes de conceber sistemas educativos que antevejam os choques e mantenham as escolas abertas”, afirmou Kadilli.

Este relatório foi divulgado num momento em que o Conselho de Administração do Fundo para a Resposta a Perdas e Danos (FRLD) se reunia em Livingstone, com apelos para que a educação seja integrada nos mecanismos de financiamento climático.

Entre as recomendações do UNICEF estão a inclusão explícita da educação nos Planos Nacionais de Adaptação e nas Contribuições Nacionalmente Determinadas, bem como a alocação de recursos específicos à educação nos fundos climáticos internacionais.

A análise ainda destaca situações semelhantes na região, onde inundações no Quénia, secas e conflitos na Somália, assim como o aumento das temperaturas na Etiópia, têm comprometido o desempenho escolar e a frequência das aulas.

O UNICEF conclui que, sem ações urgentes e financiamento apropriado, os impactos climáticos podem comprometer de forma estrutural o futuro da educação em Moçambique e na África Oriental e Austral.

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