O cancro do colo do útero é umas das doenças menos faladas e, naturalmente, menos conhecidas pela maioria dos moçambicanos, mas as suas consequências são nefastas, causando a morte de milhares de mulheres.

Apesar de as autoridades moçambicanas reconhecerem que esta doença constitui um dos principais problemas do cancro da mulher no país, os esforços para a sua prevenção e tratamento ainda são insipientes.

O país não possui um programa de vacinação contra o cancro do colo do útero e quando os doentes se apresentam ao hospital já não têm hipóteses de recuperação, porque cerca de 80 por cento dos casos diagnosticados já se encontram na fase terminal.

Segundo a vice-Ministra da Saúde, Nazira Abdula, desde 2008 o rastreio do cancro do colo do útero e do cancro da mama passaram a integrar a consulta do planeamento familiar, o que permite o início imediato do tratamento da doença. Mas esses serviços ainda não estão acessíveis em todas unidades sanitárias, sendo os mais desfavorecidas as regiões rurais, onde vive a maioria da população moçambicana.

Face a estas insuficiências, a morte precoce é a sorte provável da maioria das mulheres diagnosticadas com o cancro do colo do útero em Moçambique.

Por outro lado, as mulheres são o grupo mais afectado pelo HIV/SIDA, doença que também está associada ao cancro do colo do útero. Peritos afirmam que uma mulher seropositiva está mais propensa a adquirir o papillomavirus (HPV), o vírus responsável por 75 por cento das causas do cancro do colo do útero.

DOENÇA DOS POBRES

Contudo, o cancro do colo do útero não é um problema exclusivo de Moçambique. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera este tipo de cancro como o segundo mais comum em mulheres do mundo inteiro, sendo que 80 por cento de todos os casos registados ocorre nos países pobres.

Durante a recente conferência sobre a erradicação do cancro do colo do útero realizada esta semana em Lusaka, a capital zambiana, a AIM perguntou a especialista Joan Benson as razões que levam o cancro do colo do útero a afectar com maior severidade os países pobres.

“Nos países em desenvolvimento muitos casos de cancro são geralmente identificados quando a mulher está numa fase muito avançada, contrariamente ao que acontece nos países desenvolvidos, onde as mulheres vão regularmente ao teste de rastreio e a doença é identificada ainda muito cedo“, explicou Benson, que é directora executiva das Organizações Internacionais sobre Assuntos Médicos e Políticas da Merck, uma companhia global líder na produção de fármacos e vacinas.

Segundo Benson, na maioria dos países em desenvolvimento as mulheres têm acesso limitado aos testes de rastreio, apresentando-se ao médico quando já se encontram em estado grave.

Além da escassez de recursos financeiros, outros factores que propiciam a ocorrência da doença e dificulta o seu tratamento são a falta de conhecimento tanto por parte da população, bem como dos dirigentes. Este facto é exacerbado devido ao estigma associada a doença.

Como exemplo, a activista nigeriana Nikky Nyoweri apontou o caso do Presidente ugandês, Yoweri Musseveni, que chegou a perguntar-lhe o que era o cancro do colo do útero.

Por isso, Nikky Nyoweri defende que o primeiro passo na prevenção e combate a doença passa pela sensibilização de todos os actores vivos da sociedade, particularmente os dirigentes, para que tenham consciência da existência do problema e o seu impacto negativo na saúde pública.

“Há falta de conhecimento sobre este problema e se não levarmos essa informação para a população e chamar a atenção aos Chefes de Estados não haverá mudanças”, disse ela, apontando o caso de Musseveni que, consciencializado pela doença, anunciou, semana passada, a introdução de um programa nacional de vacinação contra o cancro do colo do útero no seu país.

Por outro lado, Nikky Nyoweri destacou o desafio da eliminação do estigma a volta da doença, um problema que está associado a localização do útero na mulher, que é uma parte íntima do corpo sobre o qual não costumam falar nem aos seus parceiros.