Joe Biden foi eleito Presidente dos EUA – faz um ano na quinta-feira – com a promessa de unir os norte-americanos, mas analistas defendem que, apesar dos esforços, continua a liderar os “Estados Divididos da América”.
O estado de Wisconsin teve como governador, até 2019, Scott Walker – um fervoroso apoiante do ex-Presidente Donald Trump e considerado um dos mais conservadores dirigentes do Partido Republicano.
Em 2019, os eleitores do Wisconsin substituíram Walker pelo democrata de esquerda Tony Evers, e, nas eleições que deram a vitória a Joe Biden, há um ano, reelegeram para o Congresso Tammy Baldwin, a primeira senadora assumidamente homossexual nos Estados Unidos e membro de uma fação do Partido Democrata que acusa Biden de ser excessivamente conservador.
Brian Wilbur, investigador do departamento de Ciência Política da Universidade de Chicago, que o Wisconsin já não é sequer um “estado púrpura” (em que os dois partidos dividem os votos a meio), mas antes um exemplo ilustrativo das radicais contradições e divisões políticas herdadas da presidência de Donald Trump.
Felipe Pathé Duarte, professor da Nova School of Law, em Lisboa, concorda com esta perspetiva e salienta que as principais fraturas políticas nestes “Estados Divididos da América” resultam da “insistência na falta de legitimidade da vitória democrata”, que atribui a “alguns círculos republicanos que ainda têm muita influência”.
Mas as divisões políticas infiltraram-se também em cada um dos partidos: no republicano, crescem os atritos entre os apoiantes de Trump, que desejam uma sua futura reeleição, e aqueles que procuram tornar o partido mais moderado; no democrata, a ascensão de figuras como o senador Bernie Sanders ex-candidato à presidência e representante da ala mais à esquerda do partido — contrasta, e nem sempre compactua, com a tendência mais moderada que Biden trouxe para a Casa Branca.
Ainda recentemente, Joe Biden foi obrigado a reduzir para metade o valor do seu plano de apoios sociais e ambientais – para 1,75 biliões de dólares (cerca de 1,5 biliões de euros) — de forma a conseguir que o seu próprio partido o aprovasse no Senado.
Brian Wilbur acredita mesmo que algumas das reformas políticas e económicas defendidas por Biden durante a campanha eleitoral, há um ano, dificilmente terão sucesso, não apenas por causa da falta de apoio bipartidário no Congresso, mas por causa das profundas divisões internas entre os democratas.
Enquanto isso, a popularidade de Joe Biden continua a cair e situações como a turbulenta saída militar do Afeganistão não têm ajudado a pacificar a sua relação com os norte-americanos.
Do lado republicano, a situação não é mais risonha, diz Nuno Gouveia, que lembra que o partido está dividido entre a tentação de voltar a ter Donald Trump como candidato nas próximas eleições presidenciais ou romper totalmente com as suas ideias, mas sempre com a sua imagem como “fantasma”.
Ao mesmo tempo, uma recente sondagem efetuada pelo Instituto Pew Research Centre revelava que, em 2012, menos de metade dos norte-americanos identificava “fortes conflitos” entre democratas e republicanos; um ano depois da eleição de Biden para a Casa Branca, mais de 70% dos inquiridos acredita nesses conflitos inconciliáveis.
Nuno Gouveia lembra ainda uma outra sondagem, da NPR/PBS, divulgada esta semana, que indica que 81% dos norte-americanos acreditam que há uma séria ameaça à democracia, concluindo que estes números “são assustadores e revelam bem a divisão que persiste na sociedade norte-americana”.

















