16.4 C
Matola
Domingo, Junho 21, 2026
Politica Morte de Dhlakama provocou crise profunda na Renamo, diz Severino Ngoenha

Morte de Dhlakama provocou crise profunda na Renamo, diz Severino Ngoenha


Analistas moçambicanos consideram que a morte de Afonso Dhlakama deixou a Renamo numa crise profunda, porque o principal partido da oposição de Moçambique não estava preparado para perder um “líder carismático” que dirigiu a organização como um “messias”.

Afonso Dhlakama morreu em 03 de maio de 2018 na Serra da Gorongosa, vítima de doença, encerrando uma liderança que durou 39 anos.”Ela [a Renamo] está a afundar-se, mas é importante dizer que o principal responsável da situação da Renamo hoje é o próprio [Afonso] Dhlakama”, afirmou o reitor da Universidade de Moçambique (UDM), Severino Ngoenha.

Este filósofo de formação considera que a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) está dividida em duas alas: uma política, dirigida pelo líder eleito do movimento, Ossufo Momade, e outra militar, comandada pelo líder da autointitulada Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo, que contesta o presidente da organização.

“Hoje, a Renamo está claramente dividida, e essa divisão não é só entre Nhongo e Ossufo Momade”, acrescentou aquele académico.

Nota-se, prosseguiu, que há um setor do partido que está no parlamento, e um outro que está nas zonas rurais. Ambos não se identificam um com o outro.

“Temos uma Renamo do parlamento, com vencimentos e privilégios altos, e a Renamo confinada no interior, que está no campo”, destacou o reitor da UDM.

Severino Ngoenha referiu que o estilo autocrático com que Afonso Dhlakama dirigiu o partido ao longo de 39 anos em que esteve à frente da organização minou a construção de uma linha de sucessão à altura da projeção nacional do partido e do seu estatuto de alternativa credível à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder há 44 anos.

“Uma organização política não é uma organização de um individuo, não é de um messias, o chefe de um movimento é um primeiro entre iguais”, observou Severino Ngoenha.

Com Ossufo Momade, não se vislumbra na Renamo uma dinâmica de debate que permita que o partido se assuma como alternativa à Frelimo, notou Ngoenha.

“E é pena, porque nós precisamos da Renamo como um movimento forte e não como movimento de guerrilha, não como movimento de antigos combatentes”, assinalou.

A solução, continuou, passaria por Ossufo Momade reinventar-se e afirmar o seu poder no partido ou pela emergência de um impulso reformador dado por uma ala jovem.

Recomendado para si:  Daniel Chapo promulga Lei do Banco de Desenvolvimento de Moçambique

Por seu turno, o fundador e primeiro reitor da Universidade A Politécnica, a primeira privada do país, Lourenço do Rosário, considerou que a Renamo não conseguiu ultrapassar o “luto” causado pela morte de Afonso Dhlakama, porque prevalecem fortes divergências internas.

“A Renamo não fez o luto, politicamente, e militarmente tem Nhongo a morder-lhe os calcanhares, é um problema político que a Renamo tem de resolver”, declarou Lourenço do Rosário.

A organização e estruturas de direção da Renamo assentavam em Afonso Dhlakama e a sua morte trouxe à superfície as fragilidades do partido, frisou Lourenço do Rosário.

O académico salientou que o atual líder da Renamo não tem o carisma do seu antecessor, não tem autoridade sobre o braço armado do partido e errou ao apressar reformas na estrutura da organização, sem ter consolidado o poder.

“O facto de Ossufo Momade ter ido viver no quartel-general da Renamo em Gorongosa era para fazer o trajeto propedêutico para poder ganhar a estrutura militar do partido até ao congresso, mas isso, na prática, não aconteceu, porque uma parte dos militares não o aceita como líder”, observou Lourenço do Rosário.

O reitor de A Política avançou que alguns setores da Renamo encararam Ossufo Momade como uma solução transitória até à eleição de um novo líder que iria suceder a Afonso Dhlakama, mas o atual presidente do partido acabou sendo escolhido com grande maioria em congresso.

Face à contestação à sua liderança, Ossufo Momade vai ter de encontrar formas de pacificar o partido, porque o país precisa de uma oposição unida e forte, para apresentar um projeto alternativo de governação.

“O próprio Ossufo Momade que se reinvente, porque ele foi eleito, é legitimo, ganhou o congresso, não fez nenhum golpe”, ressalvou Lourenço do Rosário.

Sobre se a derrota expressiva que a Renamo sofreu nas eleições gerais de outubro do ano passado reduz a legitimidade de Ossufo Momade, Lourenço do Rosário recordou que Afonso Dhlakama perdeu em todas as cinco eleições gerais em que participou, mas conseguiu sobreviver politicamente aos desaires.

O académico apontou a Frelimo como um exemplo de superação de “luto e orfandade”, lembrando que o partido conseguiu manter-se no poder, mesmo após a morte de líderes importantes.

Destaques da semana