O primeiro dia do julgamento de Donald Trump no Senado foi dedicado apenas a questões procedimentais. Mas foi o pretexto para ambos os partidos mostrarem ao que vieram.

A manhã já tinha sido agitada em Washington. O arranque da primeira sessão do julgamento de impeachment de Trump estava agendado para as 13h e o primeiro ponto da agenda era a discussão e votação de uma resolução, apresentada pelo líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, com uma proposta para as regras que iriam reger o julgamento — no qual Trump é acusado de abuso de poder e de obstrução do funcionamento do Congresso, por ter alegadamente pedido à Ucrânia para investigar o filho de Joe Biden (um dos principais candidatos democratas à presidência dos EUA) em troca do desbloqueio de ajuda militar norte-americana, interferindo assim com os seus poderes presidenciais no próximo ato eleitoral.

À semelhança do que aconteceu no julgamento de Bill Clinton, o último a decorrer no Senado dos EUA, cada parte (acusação e defesa) terá 24 horas para apresentar os seus argumentos; depois, os senadores terão 16 horas para questionar ambos os lados; e, no final, um debate de quatro horas antecederá os votos finais — que poderão incluir, caso os senadores considerem necessário, a convocação de novas testemunhas e requisição de novos documentos que ajudem a clarificar a verdade.

Numa primeira versão da proposta, lia-se que cada lado teria essas 24 horas distribuídas por apenas dois dias — o que significaria duas sessões de 12 horas para cada lado apresentar os seus argumentos. Mais tarde, através de fontes próximas do Partido Republicano citadas pela CNN, confirmava-se que o objectivo de McConnell era precisamente despachar o julgamento o mais rapidamente possível. A manhã tinha sido de duras críticas nos corredores do Capitólio. Chuck Schumer, líder da bancada democrata no Senado, classificou a proposta como “uma desgraça” e considerou que o objectivo do horário era para  “prolongar [a sessão] durante a noite e esconder ainda mais as acções do presidente”.

Ainda de manhã, Schumer anunciara que iria avançar com uma série (só durante o dia se viria a saber quantas) de emendas à resolução dos republicanos. O objectivo: garantir que os senadores podiam convocar testemunhas e intimar as instituições do Estado para que entregassem documentação relevante para o processo. As regras propostas por McConnell apenas previam esta possibilidade no final da argumentação de cada lado, mas os democratas consideravam que era necessário consultar documentação de instituições como a Casa Branca, o Pentágono ou o Departamento de Estado, e ouvir testemunhas como o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, antes de apresentarem os argumentos.

Minutos antes do início da sessão, soube-se que McConnell tinha feito alterações de última hora à proposta. Afinal, cada lado teria três sessões de oito horas (e não duas de 12 horas) para apresentar os seus argumentos. E as provas produzidas no inquérito da Câmara dos Representantes seriam automaticamente incluídas no processo do julgamento — e não apenas após votação dos senadores, como inicialmente previsto. Faltava o que os democratas mais queriam: poder convocar testemunhas e requisitar documentos antes da apresentação dos argumentos finais.