Capa Xenofobia impulsiona migração em massa de moçambicanos da África do Sul

Xenofobia impulsiona migração em massa de moçambicanos da África do Sul


O receio da violência xenófoba e a incerteza sobre a permanência de estrangeiros em situação irregular na África do Sul têm levado centenas de moçambicanos a regressar ao seu país.

No posto fronteiriço de Ressano Garcia, o fluxo de cidadãos nacionais a entrar em Moçambique permanece elevado, especialmente em um dia marcado por manifestações anti-imigração em várias cidades sul-africanas, que aumentam as apreensões acerca de novos ataques a comunidades estrangeiras.

Os relatos daqueles que optam por voltar refletem um cenário de abandono forçado, onde muitos deixaram as suas casas, empregos e bens por medo de que os protestos se transformem em episódios de violência semelhantes aos que ocorreram em ondas anteriores de xenofobia. As inquietações foram exacerbadas pelo prazo estipulado por grupos anti-imigração para a regularização de estrangeiros, fixado para hoje, data que coincide com as manifestações programadas.

Informações obtidas pela AIM a partir da Direcção Provincial de Migração de Maputo junto à fronteira indicam que, nas últimas 24 horas, mais de seis mil movimentos migratórios foram contabilizados em Ressano Garcia. No dia 29 de Junho, registaram-se 3.439 entradas em Moçambique, das quais 3.205 pertenciam a cidadãos moçambicanos e 234 a estrangeiros.

Uma reportagem da AIM verificou, durante a manhã de ontem, um fluxo contínuo e ordenado de moçambicanos regressando da África do Sul, muitos deles transportando apenas pequenas bagagens e vivências marcadas pela incerteza. Nas primeiras horas, pelo menos 24 cidadãos moçambicanos recorreram a vias clandestinas para atravessar a fronteira, dado que não possuíam passaporte ou documentação válida. Como parte das operações de fiscalização migratória, as autoridades deportaram também 210 indivíduos por imigração ilegal, incluindo 187 homens e 23 mulheres, com idades entre os quatro e os 50 anos. Na mesma ocasião, 61 cidadãos malawianos foram devolvidos ao seu país.

Um dos retornados, Armando Macuácua, trabalhador residente em Joanesburgo, decidiu antecipar a sua viagem para evitar ser apanhado pela violência. “Viemos porque ouvimos das manifestações e do clima de tensão. Preferimos regressar enquanto ainda é possível viajar em segurança,” afirmou.

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A história de Virgínia Mondlane ilustra o drama vivido por muitas famílias. Depois de 22 anos na África do Sul, viu-se obrigada a deixar quase tudo para proteger os seus. “Saí apenas com a minha família. Deixámos a casa e os nossos bens porque a situação já não nos dava segurança,” lamentou. Virgínia apelou directamente ao Presidente da República, Daniel Chapo, para intensificar o diálogo com as autoridades sul-africanas, de modo a encontrar soluções para a regularização documental dos moçambicanos que residem e trabalham na África do Sul. Desse modo, expressou preocupação com o impacto social e económico do regresso em massa de trabalhadores, destacando a necessidade de soluções para evitar problemas sociais decorrentes da falta de emprego.

Outros cidadãos expressaram sentimentos semelhantes. Uma mulher proveniente da Cidade do Cabo, embora não tenha assistido a atos violentos, decidiu voltar antes que a situação se deteriorasse.

Em resposta à crescente insegurança, a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, assegurou que o Governo moçambicano está em contacto constante com as autoridades sul-africanas para garantir um regresso digno dos cidadãos afetados pela onda de xenofobia, permitindo que levem os seus bens e pertences.

Os protestos que se realizam hoje em várias regiões da África do Sul são promovidos por movimentos que exigem a expulsão de estrangeiros em situação irregular, argumentando que estes contribuem para o desemprego, o aumento da criminalidade e a pressão sobre os serviços públicos.

Enquanto as manifestações prosseguem, em Ressano Garcia continua a chegar um número crescente de famílias que apenas buscam um ambiente seguro. Muitas abandonaram anos de trabalho, bens e o sonho de uma vida melhor, regressando a Moçambique apenas com a esperança de reencontrar a paz.

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