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Segunda-feira, 3 Agosto - 17:32
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A História da jovem que filmou o homicídio de George Floyd

Muito se tem falado da vítima, George Floyd, do homicida, Derek Chauvin, e dos três outros polícias acusados de cumplicidade. A história menos conhecida é a de Darnella Frazier, a jovem que filmou a cena e, sem querer, acendeu o rastilho para o que alguns já consideram o mais amplo movimento social da História dos EUA.

No dia 25 de maio, a jovem estudante secundária de 17 anos ia apenas acompanhar o seu primo de nove anos a uma loja em Minneapolis, quando viu a polícia a deter George Floyd. Sem pensar que estava a pôr em movimento uma avalanche de manifestações por todo o país, começou a filmar a cena. Filmou-a durante 10 minutos e nove segundos. Logo ao fim dos primeiros 20 segundos da filmagem, Floyd começou a pedir que o agente Chauvin afrouxasse a pressão e, depois, a queixar-se de falta de ar: “I can’t breathe [Não consigo respirar]”.
Ao fim dos 10 minutos e nove segundos, os polícias retiraram-se do local nos carros de serviço e Floyd, já morto, foi levado de maca numa ambulância. Darnella Frazier partilhou o vídeo que tinha acabado de fazer e este espalhou-se mais depressa que o novo coronavírus.
Darnella, traumatizada com a cena que presenciara, acompanhada agora por um psicoterapeuta, recusou sempre ser entrevistada, mas o seu advogado, Seth Cobin, ouvido pela BBC, explicou o comportamento da jovem: “Ela sentiu que tinha de documentar aquilo. É como se o movimento dos direitos civis tivesse renascido de uma forma inteiramente nova, por causa daquele vídeo”.
Com uma inesperada exposição nas redes sociais, a autora da filmagem deu no Facebook algumas explicações que continua sem dar à imprensa. Criticada por ter assistido à cena, e por tê-la filmado em vez de intervir em socorro de Floyd, ela explicou-se: “Se não fosse eu [aqueles] quatro polícias ainda teriam o emprego deles, causariam outros problemas. O meu vídeo deu a volta ao mundo para toda a gente ver e saber”.
Agora, Darnella prestou o seu depoimento ao FBI e à polícia criminal do Minnesotta, entregou o vídeo à polícia e poderá ser chamada a testemunhar no julgamento do homicídio de Floyd. Segundo o advogado, foi difícil assistir ao depoimento: “Ela contou que sempre que fecha os olhos vê aquilo. Vê a cara de George Floyd a morrer. Abre-os e ele desapareceu, fecha-os e volta a vê-lo”.
O advogado comparou o papel desempenhado por Darnella com o de uma mulher negra, adulta, Rosa Parks, que em 1955 recusou ceder o seu lugar no autocarro a uma mulher branca que lho exigia com o argumento de ela não ter o direito de sentar-se num lugar para brancos. A recusa de Rosa Parks, nada premeditada, desencadeou o movimento dos direitos civis, que mudou a face do país.
Segundo Cobin, “tal como Rosa Parks, ela não queria ser a heroína ou o ícnoe do movimento de direitos civis. Calhou apenas que ela estava ali no momento certo. Ela não é um Martin Luther King, não é um Malcolm X, que decidiram liderar as pessoas. Ela é só uma pessoa normal que fez o que era certo”.
Se a página de Facebook de Darnella Frazier recolhe inúmeros aplausos e palavras de incentivo, o destino ulterior das pessoas que têm filmado cenas de violência extrema por parte da polícia é tudo menos tranquilizador. Apesar de a Primeira Emenda da Constituição garantir aos cidadãos o direito de filmarem as ações da polícia, há inúmeros casos de pessoas que fizeram uso desse direito e depois se viram assediadas e perseguidas, geralmente com outros pretextos. Foi o que sucedeu com Ramsey Orta, por ter filmado o homicídio do afroamericano Eric Garner, igualmente por asfixia; e foi o que sucedeu com Feidin Santana, igualmente por ter filmado o homicídio, a tiro, do afroamericano Walter Scott.
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