Internacional Mulher grávida morreu após ser recusada em oito hospitais em 15 horas

Mulher grávida morreu após ser recusada em oito hospitais em 15 horas

No seu nono mês de gestação, Neelam Gautam enfrentou diversos problemas de saúde e chegou a passar cinco dias no hospital devido a elevada pressão arterial relacionada com a gravidez, e possivelmente febre tifóide. Para além das complicações com a gravidez, Neelam e o seu marido, Bijendra Singh, enfrentavam uma preocupação adicional. O surto de coronavírus agravou-se na Índia, sobrecarregando os hospitais indianos a um ponto de colapso. 

No entanto, quando na madrugada do passado dia 5 deste mês Neelam acordou com fortes dores de parto, ela e Bijendra não poderiam imaginar o desfecho trágico da gravidez.

Como dá conta o The New York Times, Neelam foi recusada em oito hospitais diferentes de Nova Deli, a capital da Índia, numa odisseia que durou 15 horas. Acabou por morrer, assim como o bebé que esperava.

No primeiro hospital que tentaram, ambos foram recebidos desta forma por um médico: “Dou-lhe um estalo se tentar tirar a sua máscara”, disse um médico a Neelam.

Ficaram chocados, mas, face aos problemas respiratórios de Neelam, nem sequer deram resposta. A mulher pediu que lhe dessem oxigénio. Mas o médico recusou assistir Neelam e mandou-os para outra unidade hospitalar, onde foi igualmente recusada a sua admissão.

A situação repetiu-se no terceiro hospital. No quarto, Bijendra Singh já pedia um ventilador para Neelam, cujo estado de saúde foi, gradualmente, deteriorando-se. A resposta do médico que os atendeu foi brutal. “Ela vai morrer. Leve-a para onde quiser”.

Ao sétimo hospital que rejeitou prestar assistência à sua esposa, Bijendra Singh chamou a polícia. Dois agentes deslocaram-se ao Instituto de Ciências Médicas, um grande hospital público de Nova Deli. Os polícias tentaram convencer os médicos a admitirem Neelam, mas nem isso resultou.

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A mulher foi de ambulância para o oitavo hospital. Quando lá chegaram, disseram-lhes que não tinham disponíveis para receber Neelam. Nesta altura, cada vez mais enfraquecida, Neelam já murmurava “Salvem-me”.

A ambulância regressou ao Instituto de Ciências Médicas. Bijendra Singh colocou a sua esposa numa cadeira de rodas e empurrou-a na direção de uma sala das urgências, desesperado. Mas era demasiado. Neelam. Os médicos pronunciaram a sua morte e a do bebé.

Baixo investimento num sistema de saúde a colapsar

Uma investigação preliminar do governo indiano considerou a administração do hospital e os funcionários do Instituto de Ciências Médicas culpados de negligência.

Mas este não foi o único caso recente. Uma mulher grávida morreu em circunstâncias semelhantes em Hyderabad, outra na Caxemira indiana. Casos que ilustram a incapacidade e as lacunas do sistema de saúde indiano de responder à pandemia e a outras emergências médicas.

O ritmo de contágios por coronavírus está a aumentar a um ritmo alarmante – só Estados Unidos e Brasil apresentam um número superior de casos por dia – num país com uma população de 1,3 mil milhões. O número de mortes causadas pela Covid-19 é de mais de 13.600. Os hospitais estão nos limites das suas capacidades, e Nova Deli é um exemplo disso mesmo.

Muitas pessoas morrem nas ruas e os médicos têm medo de tratar os pacientes com coronavírus. Mas os problemas do sistema de saúde indiano eram anteriores à pandemia. Algo que se pode explicar pelo baixo investimento do governo de Narendra Modi na área da saúde. O governo indiano gasta menos de duas mil rupias (cerca de 23,4 euros) por pessoa por ano em cuidados de saúde.

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