Destaque Analistas apontam para aumento de tensão entre Moçambique e África do Sul

Analistas apontam para aumento de tensão entre Moçambique e África do Sul

O tom da tensão entre a África do Sul e Moçambique tem estado a subir, não apenas por causa dos últimos desenvolvimentos ligados à detenção do antigo ministro das Finanças, Manuel Chang, e à recente expulsão de centenas de moçambicanos, mas também de outros factores que distanciam os dois países vizinhos, sobretudo no domínio económico e comercial.

Analistas tentam encontrar explicações para esse aumento de tensão e apontam para pretensões hegemónicas e interesses económicos.

Calton Cadeado, especialista em relações internacionais na Universidade Joaquim Chissano, lembra esta tensão não é de hoje, “é uma tensão que começou a ganhar contornos a partir do momento em que Moçambique já questiona determinados acordos que tem com a África do sul, no domínio energético”.

Cadeado afirmou ainda que a tensão entre os dois países também subiu de tom “porque a África do Sul, como potência regional, não teve uma participação robusta no negócio do gás na bacia do Rovuma e os sul-africanos não se sentem cómodos pela exclusão deste negócio”.

Pretensões hegemónicas

Aquele especialista considera que isso gerou, do lado sul-africano, uma desconfiança de que Moçambique está com ambições de grande potência capaz de desafiar a África do Sul, “e qualquer potência hegemónica na região onde está, como é o caso da África do Sul, não aceita este tipo de desafios”, embora Maputo nunca tenha manifestado tais pretensões.

Calton Cadeado concorda com o ponto de vista de que os últimos desenvolvimentos ligados aos moçambicanos recentemente expulsos da África do Sul e à detenção de Manuel Chang agravaram a tensão entre Maputo e Pretória, mas diz que “se voltarmos para a história, vamos ver a distância entre as duas partes por causa do projeto de Mpandacua”, de geração de eletricidade, na província moçambicana de Tete.

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“Há muitas coisas que distanciam os dois países, sobretudo no domínio económico e comercial, mas no domínio político há uma aproximação entre as partes”, destaca Cadeado.

O economista Constantino Marrengula é da mesma opinião e afirma não saber se a África do Sul está interessada em estabelecer parcerias em que não seja ela a ditar as regras do jogo.

Na opinião daquele analista, é por isso que alguns projetos não arrancam em Moçambique, entre os quais o do porto de Dobela, na província de Maputo “porque a África do Sul não tem a certeza de que vai ser ela a ditar as regras de jogo”.

Interesses económicos

Marrengula refere que “não sei, exactamente, qual é a visão sul-africana sobre as potencialidades que Moçambique tem no sector do gás, se é para nós “moçambicanos) funcionarmos como exportadores primários para o mercado sul-africano, pagando-nos aquilo que nos pode pagar e ficando com eles a maior parte do bolo”.

Por seu lado, o arquiteto Tomás Rondinho diz que isso já está a acontecer porque na exploração do gás natural de Temane, em Inhambane, a parte do leão fica com a multinacional sul-africana, Sasol.

“A quantidade do gás explorado e exportado, tudo é controlado pela África do Sul, e, naturalmente, que Moçambique já está a questionar isso”, alerta.

Entretanto, fonte diplomática sul-africana lembra que Pretória quando pretende estabelecer parcerias, primeiro olha para África e só depois para fora de África.

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