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Projecto Circular faz novas vítimas no bairro dos Pescadores

Dezenas de pescadores, entre marinheiros e patrões, serão retiradas das suas casas para dar lugar à construção da Estrada Circular de Maputo. Só que até este momento o Governo ainda não informou às famílias, que dependem exclusivamente da pesca, para onde serão reassentadas, o que quer dizer que vão ter que arranjar outros meios de sobrevivência.

“Sou pescador, nasci e cresci numa família de pescadores, não sei fazer nada senão pescar”, conta Alfredo Pacule.

Sebastião Luís Pereira aprendeu a pescar com o pai e nunca antes teve experiência diferente da pesca: “Não sei o que será da minha vida se me tirarem daqui.”

Estes e mais pescadores serão reassentados, mas não sabem onde. “Ainda não se aprovou o local de reassentamento”, disse o secretário do bairro, Benjamim Panguana.
Panguana garante que os pescadores não deverão ser reassentados longe da praia. No entanto, um dos locais identificados é a zona do Chiango a cerca de 9 Km do bairro dos Pescadores. A distância pode dificultar o transporte de motores e redes de casa para a praia e vice-versa.

As obras…

A “circular” decorre a ritmo acelerado em direcção às casas marcadas de “X” vermelho como sinal de que serão demolidas, o que está a aumentar a preocupação dos visados.

As obras estão a cargo da construtora chinesa Road and Bridge Corporation (CRB). A estrada tem 72 km, quatro faixas, duas em cada sentido e custam US$ 300 milhões financiados pelo Exim Bank da China. Segundo o Governo, há-de ajudar a descongestionar o trânsito e contribuir para a expansão da cidade.

O impacto

A pesca é um “trabalho de stress, às vezes ficamos sem tempo para descansar, em dias de mau tempo temos que levantar à noite para ver se os barcos estão ou não bem, exige uma participação directa do dono da embarcação”, contou Hilário Arsídio.

Estudos revelam que a principal razão de atracção da população para a zona costeira está relacionada com o acesso facilitado aos recursos, à existência de oportunidades.
A retirada dos pescadores das suas residências, segundo considera Arsídio, “poderá ser o fim do nosso trabalho”.

A actividade não se resume, apenas, ao dono da embarcação: dela dependem, os marinheiros, recolectores, processadores, comerciantes, mecânicos e redeiros. São deste modo mais famílias que são retiradas dos seus locais de actividade e colocadas no mundo do desemprego e da pobreza, o que contrasta com o lema do Governo de combate à pobreza.

A retirada dos pescadores acontece numa altura em que o debate sobre reassentamento está em voga no País. Em Palma, Cabo Delgado e Cateme, Tete, por exemplo os residentes estão a perder a terra, principal fonte de rendimento para os grandes projectos de extracção do gás e carvão.

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