Sociedade Meio Ambiente Milhares de detidos sem terem sido considerados culpados

Milhares de detidos sem terem sido considerados culpados

Milhares de detidos sem terem sido considerados culpados

Milhares de pessoas estão detidas nas prisões de Moçambique, “apesar de não terem sido considerados culpados de qualquer crime”, refere a Amnistia Internacional (AI), num relatório hoje (quinta-feira) divulgado.

De acordo com o documento da AI, a que a agência Lusa teve acesso, intitulado “Aprisionando os meus direitos: Prisão e detenção arbitrária e tratamento dos reclusos em Moçambique”, “na maioria dos casos”, as pessoas ficam detidas “durante anos, por razões falsas e sem acesso a um advogado”.

Em causa estão, sobretudo, “grupos sociais pobres [que] se encontram particularmente em risco de serem detidos durante meses, por vezes anos, em celas sujas e sobre-lotadas  sem terem cometido qualquer crime”.

O relatório, realizado em parceria com a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, revela que a maioria destas detenções são de pessoas “em desvantagem económica, [que] não são informadas dos seus direitos ou [os] não conseguem compreender” ou que “não podem pagar a um advogado”.

A Amnistia Internacional aponta ainda que estes presos são “invariavelmente representados por indivíduos não qualificados ou por advogados com poucas qualificações” e que “raramente ficam em liberdade enquanto aguardam o julgamento”.

“A abordagem aleatória de Moçambique resultou em centenas de detidos simplesmente ‘perdidos’ no sistema e a definhar na prisão sem direitos e sem recurso justiça”, afirmou Muluka-Anne Miti, investigadora da Amnistia Internacional para Moçambique.

Segundo a investigadora, em alguns casos, “os registos dos prisioneiros foram perdidos ou contêm sérias discrepâncias”.

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A Amnistia Internacional diz ter encontrado “várias crianças que alegavam e pareciam ter menos de 16 anos”, mas as autoridades prisionais, quando questionadas, “disseram que a responsabilidade de provar a sua idade cabia aos detidos”.

O problema é que – informa a AI – “apenas uma minoria das pessoas de Moçambique tem certidões de nascimento”, sendo que “os que pertencem a famílias mais pobres raramente as têm”.

O relatório hoje(quinta-feira) divulgado aponta que, em geral, os estabelecimentos prisionais moçambicanos estão “sobrelotados, têm fracas condições sanitárias e [fracos] cuidados médicos e poucas oportunidades de aprendizagem e formação”, acrescentando que “não há nenhuma para aqueles que ainda não foram julgados”.
 
“Na Prisão Provincial de Nampula, a Amnistia Internacional encontrou 196 pessoas amontoadas numa cela de 14×6 metros. Os detidos estavam sentados com os ombros a tocarem-se e as pernas dobradas, de maneira a conseguirem caber todos na divisão”, reporta a organização.   
   
A organização sem fins lucrativos explica que, a lei moçambicana determina que todos os detidos devem ser presentes a um juiz em 48 horas, que deve verificar a legalidade da detenção. Além disso, a legislação prevê que os presos tenham acesso a um advogado sem custos, o que, “na esmagadora maioria dos casos, não acontece”.

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