Continua assunto quente, em Pemba, e não só, a renúncia ao cargo do bispo da Diocese de Pemba, Dom Ernesto Maguengue, anunciada pelo próprio domingo último perante os seus fiéis seguidores, crentes e outros interessados. O Jornal Notícias traz aqui a sequência dos factos por si narrados, que desembocaram na sua decisão, considerada atípica, entre nós.
Demissão do cargo: Bispo de Pemba abre-se e explica o que aconteceu
Para tanto, o “notícias” tem em mãos o documento escrito por Dom Ernesto Maguengue, ordenado bispo em 24 de Outubro de 2004, no qual ele tenta explicar o desenrolar dos acontecimentos, dos quais se destaca a intriga no seio da Igreja, sobretudo depois da morte, por doença, de quatro jovens sacerdotes, de forma consecutiva.

A intriga veio tomar mais consistência em Setembro de 2010, quando, segundo o prelado, um sacerdote sacramentino, padre Christopher Mahendra, escreveu uma carta largamente difundidacom um conteúdo alegadamente difamatório contra a pessoa do bispo e do respectivo ministério.

“Sabe-se que não era a primeira vez, pois outras cartas do género tinham sido enviadas por certos sacerdotes para outras instâncias, inclusive ao governador da província. Na sequência destas ocorrências, em Outubro do mesmo anodesloquei-me a Maputo para um momento de diálogo com Sua Excia. Reverendíssimo Dom António Arcari, Núncio Apostólico de Moçambique”, explica Dom Ernesto Maguengue.

Dentro do mesmo contexto, em finais de Janeiro e inícios de Fevereiro de 2011 o secretário da Nunciatura e Encarregado de Negócios, Monsenhor Mário Codamo, deslocou-se a Pemba e contactou os membros do clero e os institutos religiosos. Em fins de Maio Dom Maguengue teve que comparecer a Roma por solicitação do Cardeal Prefeito, Ivan Dias, que o recebeu em audiência para tratar do funcionamento do seu ministério pastoral na Diocese de Pemba.

Terá sido depois disso que resultou no envio a Pemba de um visitador apostólico (figura equiparável a inspector), já em Outubro de 2011, no caso, à responsabilidade de Dom Gabriel Mbelinge, que em Cabo Delgado visitou as principais regiões da diocese, contactou e falou com quase todos os sacerdotes diocesanos superiores das congregações presentes.

Em Março deste ano, segundo conta o bispo demissionário, estando em Portugal para visita médica foi mesmo assim recebido em audiência, no Palácio da Propaganda Fide, a fim de expor a sua situação de embaraço, diante da demora de receber a resposta de tudo o que estava a acontecer.

“O último deste itinerário foi o recente encontro com o Núncio Apostólico no início do mês de Julho para um momento de diálogo e conselho, após o qual tomei a resolução de escrever ao Santo Padre e ao Cardeal Prefeito manifestando em substância duas coisas: que efectivamente durante oito anos de exercício do sagrado ministério episcopal surgiram dificuldades de vária ordem que foram aumentando de intensidade, criando na diocese um ambiente de tensão, tal que, em termos práticos, não permitia continuar a exercer de modo frutuoso a autoridade de guia pastoral”, explica Dom Ernesto Maguengue.

Ele diz que, a fim de evitar a exasperação desta situação crítica e continuar a acarretar os efeitos danosos aos fiéis e à sua pessoa, apresentou a intenção e o pedido de renunciar ao governo da diocese, deixando, porém, clara a sua vontade e entusiasmo de servir a Deus e ao seu povo sempre em comunhão com a sede apostólica e em obediência às indicações que houver, por bem, darem-no.

“Humanamente pensando, não me faltou o desejo de um momento de conforto em que me fossem indicadas as constatações positivas e negativas, para melhor aprender e corrigir o que há por corrigir”, diz, a dado passo, o bispo.

Na verdade, conforme ele próprio confessa, “nestes anos todos manifestaram-se na minha vida provas e resistências de ordem vária provindas de mim mesmo, de fora de mim, com variada motivação. Constituíram-se duras provocações, a doença dos padres, as mortes prematuras e consecutivas, agravadas pelo clima de tensão, murmurações e acusações até públicas contra a minha pessoa e o meu ministério”.

Sem se explicar melhor, o bispo acha que constituiu desafio, igualmente, o contexto actual marcado pelas grandes e rápidas transformações que se estão a operar no nosso país, em geral, e na província de Cabo Delgado, em particular, sobretudo na maneira de pensar e agir das pessoas, nos valores que vão sendo priorizados e veiculados pelo ambiente imperante, mormente pelos meios de comunicação de massas.