Capital vive horas de tensão extrema com fronteiras encerradas, toque de recolher e unidades armadas nas ruas.
A Guiné-Bissau entrou esta tarde num dos episódios mais graves da sua história contemporânea, após um grupo de oficiais das Forças Armadas ter anunciado, em plena rádio e televisão estatais, que assumiu o controlo total do país, declarando a deposição do Presidente Umaro Sissoco Embaló e a suspensão imediata de todas as instituições civis.
Golpe anunciado horas antes da divulgação dos resultados eleitorais
O anúncio ocorreu num momento extremamente delicado. A Comissão Nacional de Eleições preparava-se para divulgar, esta quinta-feira, os resultados provisórios das eleições gerais, realizadas no domingo. Tanto o Presidente Embaló como o rival da oposição, Fernando Dias da Costa, reivindicaram vitória antecipada, o que elevou a tensão política ao mais alto nível.
Os militares afirmam que actuaram para “garantir a estabilidade nacional”, alegando ter identificado um plano envolvendo actores internos e estrangeiros, supostamente destinado a manipular os resultados eleitorais. Segundo o comunicado, o país “não podia continuar refém de interesses que ameaçavam a integridade do Estado”.
Movimentação intensa em Bissau
Pouco antes do anúncio, moradores da capital relataram tiroteios intensos nas proximidades do Palácio Presidencial e das instalações da Comissão Eleitoral. Várias avenidas foram ocupadas por unidades militares fortemente armadas, que estabeleceram bloqueios e restringiram totalmente a circulação.
- Relatos das rádios locais indicam que:
- As fronteiras terrestres, aéreas e marítimas foram encerradas;
- O espaço aéreo permanece sob controlo militar;
- Um toque de recolher foi decretado com efeitos imediatos;
- Membros do Governo terão sido detidos em locais ainda não divulgados.
A RTP informa que o Presidente Embaló terá sido detido, embora os militares não tenham confirmado nem negado essa afirmação no comunicado emitido no final da tarde.
Processo eleitoral suspenso
A Comissão Nacional de Eleições da Guiné-Bissau, que horas antes assegurara que os resultados provisórios seriam divulgados até quinta-feira, encontra-se agora sem funcionamento, depois de militares terem assumido o controlo das suas instalações, segundo reporta o jornal moçambicano O País.
A publicação dos resultados foi suspensa até nova ordem militar, criando um vazio institucional num período em que o país aguardava uma transição política.
Um país marcado por ciclos de instabilidade
O episódio desta quarta-feira agrava o histórico de instabilidade da Guiné-Bissau, um dos países africanos com maior número de golpes e tentativas de golpe desde a independência, em 1974. Entre deposições, assassinatos políticos e dissoluções de parlamentos, o país mantém um padrão recorrente de rupturas institucionais e conflitos entre presidência, governo e forças armadas.
Impacto regional e internacional
Observadores internacionais alertam que o golpe pode ter repercussões graves na região da África Ocidental, historicamente afectada por sucessões de golpes nos últimos anos. A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) ainda não emitiu uma posição formal, mas fontes diplomáticas indicam que está a acompanhar “com extrema preocupação” a evolução dos acontecimentos.
Até ao momento, os militares asseguram que o país “permanece calmo”, embora testemunhos locais descrevam um ambiente de forte tensão, ruas desertas e presença armada significativa em edifícios públicos. Não há informações confirmadas sobre vítimas, mas a circulação de civis permanece severamente limitada.
















