A desmobilização de antigos guerrilheiros da Renamo em curso neste momento em Moçambique pode tornar-se um processo complexo e não contribuir para a reconciliação nacional, se a reintegração social não for justa e digna para eles.

Esta leitura é de alguns analistas que chamam a atenção para algumas situações que podiam ser evitadas para que a reintegração não seja dolorosa.

Para o jurista Luís Mungoi, faz pouco sentido retirar pessoas das zonas de Gorongosa, Funhalouro, Inhaminga e outras do país, onde estão numa situação confortável, para colocá-las noutros locais onde, aparentemente, se sentem deslocadas.

Ele é da opinião de que as pessoas devem ser reintegradas na sociedade lá onde elas se encontram, a menos que sejam retiradas para ocupar cargos de chefia e direcção.

Nova vida a partir do zero

Caso contrário, alerta Mungoi, “vamos criar um outro tipo de problemas, psicológicos inclusive, de desadequação das pessoas aos novos espaços porque elas têm que começar uma nova vida, praticamente do zero”.

Por seu turno, o docente universitário Calton Cadeado defende uma reintegração ativa e economicamente viável para os ex-guerrilheiros, transformando, por exemplo, os locais onde eles estavam, em museus e pontos históricos de visita, em que eles próprios possam ser guias turísticos, e daí tirassem renda.

“Nesse sentido, seria necessário fazer uma parceria entre o Estado e o setor privado, para, por exemplo, transformar a serra da Gorongosa num lugar de atração turística. Os homens estão nas matas, mas há muito que querem sair de lá”, lembra.

Cadeado assinala que “enquanto não se resolver a questão da reintegração económica bem sucedida, está-se a criar um outros marginalizados que depois podem voltar a ser mobilizados para situações de violência”.

O enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas a Moçambique, Mirko Manzoni, considerou recentemente o financiamento e a reintegração social dos antigos guerrilheiros da Renamo um desafio do processo de desmobilizou, “que pode ser mais longo e difícil”.

Desmobilização negligenciada em 1994

Por seu turno, Raúl Domingos, que liderou o anterior processo de desmobilização da Renamo, em tanto negociador-chefe da antiga guerrilha, defende que no atual deve ser dada particular atenção à integração económico-social.

“Este aspeto foi negligenciada no anterior processo porque a preocupação era cumprir o prazo de 18 meses, estabelecido no Acordo Geral de Paz de 1992”, lembra Raúl Domingos, presidente do Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD).