Grupo terrorista ameaça a África do Sul, caso o país decida envolver-se no conflito na província de Cabo Delgado. Analistas falam em propaganda, mas alertam autoridades para eventual propagação dos confrontos na SADC.

A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, é palco de violência armada desde 2017. No início do ano, as autoridades moçambicanas e internacionais classificaram os insurgentes como ameaça terrorista. E vários ataques têm sido reivindicados pelo grupo Estado Islâmico (EI).

O grupo radical alega que a Europa e os Estados Unidos estão a tentar convencer a África do Sul a liderar a guerra em Moçambique. Numa recente newsletter citada pelo jornal sul-africano The Citizen, os extremistas lembram que Pretória tem em mãos vários problemas, e uma guerra colocaria o país num dilema militar e financeiro.

O EI avisa que o grupo está pronto para “abrir a frente de combate” ao território sul-africano. A ameaça foi publicada em árabe numa recente publicação dos insurgentes, a Al-Naba.

O alemão André Thomashausen, professor de Direito Internacional na África do Sul, lembra que estas ameaças fazem parte da propaganda dos insurgentes e que vários países já foram visados. Mas faz uma chamada de atenção: “É realmente interessante e merece ser analisado como é que existe uma escalada, uma força crescente da parte desse Estado Islâmico ou das pessoas que se associam a ele ou à ideia desse Estado Islâmico em Cabo Delgado”, afirmou.

Recentemente, a ministra sul-africana dos Negócios Estrangeiros, Naledi Pandor, confirmou que estavam em curso negociações entre os dois países sobre a forma como a África do Sul pode apoiar Moçambique com a violência armada em Cabo Delgado.

Esta semana, diz o jornal The Citizen, o principal partido da oposição sul-africana, a Aliança Democrática, questionou o secretário de Defesa da África do Sul, Sam Gulube, sobre uma unidade especial das Forças Armadas que estaria alegadamente a treinar para o efeito em Durban.

Em resposta, o secretário sul-africano diz que as operações são classificadas. Mas Thomashausen diz que os rumores são verdadeiros. “É verdade que existem batalhões das forças especiais da África do Sul e concretamente existe uma unidade que tem discutido e que se tem preparado para uma eventual intervenção no norte de Moçambique”, sublinhou.

Ameaças à SADC

Respondendo a perguntas dos deputados sul-africanos, a ministra da Defesa, Nosiviwe Mapisa-Nqakula, admitiu recentemente que os serviços de inteligência militar apontam para o potencial alastramento dos ataques dos insurgentes em Cabo Delgado a outras províncias moçambicanas e aos países da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC).

Egna Sidumo, investigadora da Universidade Joaquim Chissano em Maputo, está atualmente a conduzir pesquisas no terreno em torno dos fatores de resiliência das comunidades no norte de Moçambique contra o extremismo violento. Segundo testemunhos que recolheu junto da população local, os terroristas ameaçam alargar as operações às províncias de Nampula e da Zambézia.

“Declarações temos muitas. Penso que há condições agora para chegar-se à ação. Os países podem juntar-se, não sei qual será a melhor opção. Moçambique também deve repensar e ver qual é a melhor opção que tem para resolver este problema ou pelo menos mitigar a probabilidade de propagação”, afirmou a investigadora.

Na última semana, o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, manteve uma conversa telefónica com o seu homólogo da Tanzânia e Presidente em exercício da SADC, John Magufuli. A insurgência em Cabo Delgado mereceu a atenção dos dirigentes dos dois países que partilham a fronteira naquela região.