Se alguém vaticinasse há uns anos que o Maxaquene, cinco vezes campeão nacional e com nove Taças de Moçambique, poderia descer de divisão, seria chamado de louco. Os tricolores, em regra garantiam um lugar nos três primeiros postos. Porém em 2020, ano em que comemoram 100 anos de vida, vai acontecer algo tão inédito quão impensável: a descida à divisão de honra, o chamado campeonato dos quarteirões.

O desaire poderá ser um mal a vir por bem, se a próxima temporada maxaca acabar em festa, com o clube a conseguir reorganizar-se e voltar ao Moçambola em 2021. Têm a palavra os sócios e amigos do desporto deste país, de forma a não se “afundar” um dos mais gloriosos emblemas moçambicanos.

Com o histórico riquíssimo, invejáveis instalações e uma falange de apoio como poucos, efectivamente o lugar dos maxacas não é nos chamados quarteirões.

E se recordarmos ao tempo do Sporting de Lourenço Marques, veremos que foi neste clube que evoluíram alguns dos melhores futebolistas que o país levou ao Mundo, com destaque para Eusébio, Hilário e Armando Manhiça.

UM AFUNDAR PAULATINO

A descida dos tricolores fica a dever-se a uma crise financeira – e não só – de há uns anos a esta parte, que já fazia prever o que acabou acontecendo.

Nas últimas temporadas, os “maxacas” já haviam abdicado da luta pelo título, tendo o espectro da despromoção cada vez mais latente.
As crises que têm afectado os principais patrocinadores – as LAM e a Empresa Aeroportos de Moçambique – reduzindo uma parte dos apoios, inibiram o clube de fazer contratações de vulto, passando a priorizar jogadores da formação.

Um grupo de sócios, um tanto rebelando-se contra a situação, elegeu uma nova direcção. Mas a falta de apoios financeiros falou mais alto. Numa altura em que os clubes mais poderosos buscam os melhores, facilmente os seus talentos foram sendo aliciados.

Na temporada finda, até o técnico Antoninho Muchanga “mudou de ares”, sendo rendido por Amide Tarmamade. Meses depois, o jovem mister acabou por ser “chicoteado” para dar lugar a António Figueiredo, que não conseguiu salvar a turma da descida.

Pela positiva, há a destacar a permanente presença da massa associativa que, seguramente, acompanhará o seu clube, no esforço de regressar nos próximos anos ao convívio dos grandes.

DE SPORTING, ASAS… A MAXAQUENE

Designava-se Sporting de Lourenço Marques até que, poucos depois da Independência Nacional, num comício muito concorrido, o Presidente Samora Machel disse, de forma enérgica, que não fazia mais sentido os clubes moçambicanos continuarem a ostentar designações dos colonizadores, de cariz tribal ou religioso.

A definição de um novo nome para aquele que era, e é, um dos símbolos nacionais no desporto, não foi de todo pacífica.
Para dar resposta ao delicado assunto da mudança de nomes, foi convocada a primeira AG nesse sentido. Decidiu-se pela designação de Leões da Gorongosa, como forma de manter-se o símbolo e a génese leonina.

Houve palmas e aplausos. Mas o que o Presidente Samora queria eram mudanças efectivas e não cosméticas. Dias depois, o grande líder declarava: “mudaram de Sporting para leões, para nos enganarem. É como mudar a água de uma garrafa verde para um vasilhame branco e dizer que já não é água. Mudem de facto, queremos designações bem nacionais”.

Nova AG, nova tentativa, novo fiasco. Pela ligação às Linhas Aéreas, o novo nome proposto foi o de Asas de Moçambique. A aprovação não agradou a todos. Assim, mesmo antes da publicação no BR, a Direcção foi obrigada a convocar uma nova sessão magna. Aí sim, veio a designação Maxaquene, nome  do bairro em que o clube estava inserido, por proposta do saudoso sócio Domingos Moura, adepto de quatro costados…

Quebrou-se a filiação ao Sporting de Lisboa, passando o clube a ser integrado em empresas nacionais ligadas à aviação. E foi com um nova designação e cores, que a colectividade obteve inúmeros troféus, sobretudo em basquetebol, onde conquistou, em masculinos e femininos, títulos africanos.

O IMBRÓGLIO DO CAMPO

Um processo inacabado com a empresa Afrin, colocou o futebol deste clube na situação de não ser nem carne e nem peixe. O campo junto à sede, com um piso em péssimas condições, é utilizado para treinos, nos dias em que não é alugado para espectáculos musicais. A equipa principal nos jogos utiliza o campo da Afrin como que por empréstimo.
Esta situação não favorece a formação, que apenas vai “apanhando boleias” nos tempos livres do campo anexo.

O País