Discursando na capital do Zimbabué, Harare, onde foi assistir ao funeral do ex-Presidente Robert Mugabe, o chefe de Estado sul-africano, Cyril Ramaphosa, foi vaiado pela multidão que assistia às cerimónias fúnebres num estádio.

“Apresento-me perante vós como um irmão africano que lamenta e pede desculpas pelo que aconteceu no meu país”, disse Ramaphosa, acrescentando que os tumultos vão “contra o princípio de unidade do povo africano”.

O Presidente sul-africano garantiu que continua a trabalhar para “encorajar o povo a acolher todos os cidadãos dos países africanos”.

“Os sul-africanos não são xenófobos, não têm nada contra os cidadãos de outros países”, declarou.

Milhões de zimbabueanos fugiram da repressão e da crise económica e procuraram refúgio na África do Sul, onde, no início do mês, se verificou uma onda de tumultos e pilhagens dirigidas contra estrangeiros e suas empresas.

Concentrada principalmente na maior cidade sul-africana, Joanesburgo, a violência fez 12 vítimas mortais, incluindo um cidadão estrangeiro, cuja nacionalidade não foi divulgada, segundo os últimos dados das autoridades sul-africanas.

Moçambicanos e nigerianos de regresso

Várias lojas de comerciantes estrangeiros foram queimadas e saqueadas nos arredores de Joanesburgo nas últimas semanas.

Na quinta-feira (12), um grupo de 128 moçambicanos provenientes da África do Sul chegou ao centro de trânsito do distrito de Moamba, província de Maputo, no sul de Moçambique – um regresso voluntário, na sequência dos ataques contra estrangeiros.

No grupo incluem-se 22 crianças e 106 adultos provenientes de diferentes localidades da África do Sul, destacando-se Joanesburgo.

O centro de trânsito instalado em Moamba tem capacidade para cerca 200 pessoas e foi montado a poucos metros de uma linha férrea, para facilitar a viagem das pessoas acolhidas para o seu destino final.

As autoridades moçambicanas esperavam mais de 300 pessoas, mas algumas desistiram de regressar ao país de origem.

Segundo dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, a violência que eclodiu a 1 de Setembro contra estrangeiros na África do Sul afectou cerca de 500 moçambicanos.

Também 600 nigerianos afectados pela violência xenófoba já foram repatriados da África do Sul, segundo as agências de notícias.

Violência de género preocupa autoridades

Entretanto, Cyril Ramaphosa cancelou a ida ao encontro anual de líderes mundiais das Nações Unidas devido aos problemas que afectam o país, com uma onda de violência de género e xenófoba.

Centenas de manifestantes reuniram-se na sexta-feira (13) em Joanesburgo para exigir uma acção governamental mais forte contra os crescentes níveis de violência de género no país. Alguns membros do partido no Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) estão a pedir ao Governo que declare estado de emergência.

A polícia divulgou na quinta-feira estatísticas anuais sobre crimes, que revelam que abusos sexuais e violações aumentaram 4,6% e 3,9%, respectivamente, no ano passado. Mulheres de todo o país têm partilhado experiências de violência e receios nas redes sociais e média locais.

Estes acontecimentos surgem depois de vários dias de protestos na Cidade do Cabo, na semana passada, após uma série de assassínios de jovens, mulheres e crianças.

DW