Não é fácil ser quem você é em finais que são tudo ou nada, em que há muito a perder. Comportamentos são condicionados pela ocasião, é preciso uma dose extra de coragem que nem sempre aparece. Neste sábado, em Madri, no encontro de dois times consolidados, com identidades claras, nenhum deles foi, a rigor, o que costuma ser.  

Mas seria míope, diante do roteiro do jogo, não enxergar o Liverpool como justo campeão da Europa após a vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham. Claro que não se viu em campo o time que transforma a vida do rival num inferno com avalanches de pressão e chances de gol em momentos das partidas. Não fez um jogo de campeão. Mas construiu a legitimidade de sua conquista ao longo de uma caminhada notável. Os 97 pontos na Premier League que não bastaram para o título, a dolorosa derrota na final de Kiev no ano passado, as notáveis actuações dos últimos anos… O sexto título europeu da história do Liverpool coroa um time que o mundo passou a admirar e que, acima de tudo, oferece ao futebol uma leitura, uma interpretação própria.

Klopp, após dois vice-campeonatos da Champions, tem agora sua taça. Ele é o arquiteto de uma equipe que entende o futebol com a sua sensibilidade: o jogo frenético, de pressão e verticalidade constantes na direção do gol. Ontem, não foi tudo isso, é fato. Mas o troféu coroa um estilo que dita tendência no jogo atual. Sem substituir outras fórmulas vitoriosas, mas influenciando claramente muitos treinadores, estabelecendo uma vertente.

O abraço de quase todo o time do Liverpool ao goleiro brasileiro Alisson dá o tom do quanto o resultado não conta bem o jogo. E é simbólico ter um goleiro decisivo na final após o drama de Karius no ano passado.

Não que o Tottenham tenha sido dominante, não é isso. Mas quando Origi fez o segundo gol, a três minutos do fim, o Liverpool era ameaçado e, apesar dos espaços de que dispunha, não executava sua especialidade: as transições rápidas para o ataque. O time de  Mauricio Pochettino  terminou o jogo com 61% de posse e oito finalizações no alvo contra três da equipe de Klopp. Ainda que, por boa parte do tempo, o time dirigido pelo alemão tenha tido controle através do posicionamento defensivo. E quando foi preciso defender a área, contou com uma imperial exibição do holandês Van Dijk. Mais uma, aliás, reafirmando sua condição de um dos melhores  defensores do planeta.

A final deste sábado teve mais condicionantes. Nem Kane, nem Firmino chegavam com condições físicas ideais, o que comprometeu mecanismos ofensivos dos times. Talvez pelo peso de jogo, eram poucos riscos e atuações individuais abaixo do habitual, como as de Son, Dele Alli e o próprio Salah. Até as três semanas que separaram a última rodada do Campeonato Inglês da final de ontem pareciam tirar os jogadores de ritmo. Assim como a temperatura alta em Madrid.

E nada condiciona tanto um jogo assim quanto um gol cedo, num pênalti bem duvidoso: eram 24 segundos quando o árbitro viu toque de mão de Sissoko. Salah converteu e imaginou-se que estavam criadas condições ideais para o Liverpool acelerar e produzir uma avalanche de chances.

Até o intervalo, o Liverpool sofreu pouco, é fato. Deixou Mané aberto pela esquerda, muitas vezes não acompanhando a descida do lateral Trippier, mas a produção ofensiva foi tímida. A pressão adiantada dos dois times gerava muitas bolas longas e o jogo não ganhava ritmo.

O Tottenham tinha a bola, mas parecia temer um desarme diante de um time que pressiona muito bem e acelera com perigo. Assim,sua posse era cuidadosa, com poucos passes arriscados. Não penetrava. Houve pouco jogo por em 45 minutos.

A necessidade do Tottenham mudou o jogo. O Liverpool magistralmente bloqueava o jogo pelo centro e cedia os lados. Pochettino ousou e colocou Lucas no lugar do volante Winks e, mais tarde, usaria dois centroavantes, com Llorente.

Firmino não suportou o jogo e deu lugar a Origi. O Liverpool recorreu a um jogo mais físico com Milner na vaga de Wijnaldum. Teve momentos de domínio e Milner perdeu grande chance, até o jogo passar a se desenrolar em seu campo defensivo. Son cresceu e, com Lucas, cresceu o jogo pelo meio do Tottenham, desequilibrando a marcação do Liverpool. Alli cabeceou uma bola para fora, Alisson pegou cobrança de falta de Erikson,bolas seguidas em chutes de Son e Lucas e o jogo ganhou emoção, ficou aberto por um instante. Até o rebote de umcórner achar Origi para o gol que sentenciou o jogo.

O Globo