Quem está habituado a circular pelas artérias da cidade de Maputo, talvez não se sinta surpreendido com o crescente número de pessoas que a cada dia que passa “assalta” os mercados  para se dedicar a uma actividade que está a ganhar contornos significativos: a venda de medicamentos tradicionais.

Oferecendo raízes que curam males de amor, azar ou que espantam espíritos, os vendedores usam todo o tipo de argumento para vender os medicamentos tradicionais.

Numa ronda feita pela reportagem do MMO no mercado de Xiquelene, constatou em muitas bancas  raízes, folhas, óleos e pomadas, que fazem de tudo, desde a cura de dores de barriga, cólera até ao HIV/SIDA, além de garantirem que possuem remédios para as mulheres estéreis.

Alberto Guambe, vendedor de medicamentos tradicionais naquele mercado começou esta actividade há quinze anos.  O jovem que agora está com 28 anos de idade aprendeu com a mãe todos os nomes dos medicamentos que comercializa bem como a fazer a devida mistura.

 “Tenho aqui batata africana, imputumbulo para crianças e outros tantos medicamentos tradicionais para atender sorte e saúde. Vêm pacientes com dores de cabeça, malária, diarreias ou com males espirituais”, explicou.

Guambe consegue por dia amealhar 500 meticais e nos primeiros meses do ano vende 1000 a 1500 meticais, pois são os meses que as pessoas procuram mais os medicamentos tradicionais principalmente para as crianças.

Remedio 1

Por sua vez Armando Gundane também vendedor no mercado Xiquelene e pai de quatro filhos começou a actividade em 1990 no mercado de Xipamanine, mas como o espaço era menor, quatro anos depois  passou para mercado de Xiquelene onde vende até hoje. Gundane vende raízes para tratar asma, gonorreia, maus espíritos, malária  entre outras  doenças.

O nosso entrevistado conta que não teve nenhuma formação para começar a comercializar medicamentos tradicionais, Gundane aprendeu sobre seu ofício observando seus pais médicos tradicionais a atender e tratar os seus pacientes.

Gundane com quase  50 anos  de idade tem duas bancas, uma das quais vende a sua esposa, que aprendeu os nomes dos medicamentos e a fazer as misturas com o seu marido.

Remedio 8

Por sua vez Sérgio André pai de três filhos e que está nesta actividade há mais de 10 anos  disse que há um respeito mútuo entre a medicina tradicional e a convencional, por isso quando alguns vêm procurar medicamentos para doenças que precisam de comprimidos, mandam para o hospital.

Remedio 5

De referir que desde 2013, praticantes de medicina tradicional incorporaram parte do seu trabalho no Sistema Nacional de Saúde, no quadro de uma parceria que está a ser monitorada pelo Instituto de Medicina Tradicional (IMT).

A parceria entre a medicina tradicional e a convencional resulta da necessidade de valorização da primeira, uma vez reconhecido o papel fundamental que desempenha particularmente no meio rural onde a cobertura da rede sanitária ainda se mostra deficiente.

Deste modo, o Ministério da Saúde, através do Instituto de Medicina Tradicional, viu a necessidade de dotar os praticantes de medicina tradicional de conhecimentos sobre cuidados de saúde, sobretudo no âmbito dos cuidados primários.

A iniciativa enquadra-se igualmente na recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) que desde 1978 advoga que nos países com problemas de desenvolvimento e cobertura sanitária, autoridades sanitárias  deviam trabalhar em parceria com outros intervenientes ao nível da comunidade para melhoria da sua cobertura de cuidados de saúde primário.