Aos 19 anos, o moçambicano Samito Jorge vive “pobre e humilhado”, ainda a sofrer as consequências da decepagem dos seus órgãos genitais, quando tinha nove anos, e depois de ter sido expulso de casa pelo pai.
“O meu pai ‘girou-me’ de casa, depois de ele ter ‘girado’ a minha mãe. Eu saí no início de 2011 para viver com minha mãe, porque ele ameaçava queimar ou destruir a casa. Mas vivemos à rasca, sem nenhuma ajuda” diz Samito Jorge.
A renda da família, resultante de pequenos negócios de revenda de fruta, é de 400 meticais (10 euros), distribuído entre o aluguer da casa, alimentação, educação e saúde.
Muitas vezes, conta, passa dias a fio, “sem ter nada de comer”.
“Não há organizações que me ajudem, na situação em que me encontro”, diz Samito Jorge, que ficou órfão de mãe na semana passada. O dinheiro que recebeu pela morte da mãe, por sentença judicial, foi usado para comprar um, mas que já está avariado na casa do pai.
Vítima do tráfico de órgãos humanos em Chimoio, Manica, centro de Moçambique, Samito Jorge caiu numa armadilha que lhe custou a extracção do seu pénis e testículos, quando, em Outubro de 2003, foi aliciado e raptado por dois homens no antigo mercado ’37mm’ para um emprego “chorudo”.

Em 2005, com o apoio da Amnistia Internacional e da Liga dos Direitos Humanos de Moçambique, Samito viajou para Portugal para uma intervenção cirúrgica de reparação dos seus órgãos no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.
Quatro anos depois voltou à capital portuguesa para uma outra cirurgia, de cariz estético, mas, desde então, disse, nunca mais teve acompanhamento e apoio psicossocial.
“Não posso fazer filhos, tentei fazer sexo com mulheres e não deu certo, por duas vezes. Não tenho namorada, e nunca fiquei com ninguém”, conta Samito Jorge, que se queixa de “humilhações” por parte de colegas.
“Na escola, sabem a situação que me ocorreu. Às vezes, os professores defendem-me, mas as colegas ofendem-me”, queixa-se.
As autoridades de justiça em Manica, centro de Moçambique, colocaram a província em “alerta vermelho” em Setembro do ano passado, depois que consideraram “alarmante” a subida de casos de tráfico de pessoas e de órgãos humanos.
No mesmo período, as estatísticas da Procuradoria Provincial indicavam o registo de seis casos de tráfico de pessoas e de órgãos humanos que foram encaminhados para o tribunal. Dos processos que tinham transitado de 2011, cinco foram julgados e sentenciados.















