Centenas de idosos em Chimoio, centro de Moçambique, queixam-se de lhes serem retirados subsídios de ajuda pós-ciclones, do Instituto Nacional de Ação Social (INAS), facto que o organismo desmente.
“Eu vivi primeiro nas salas de aulas, depois em tendas e hoje estou numa casa sem teto, mas não tenho direito a subsídio. Como se explica isso?”, desabafa Paciência Jerónimo, 64 anos, vítima do ciclone Idai em março de 2019.

Em declarações à Lusa, a idosa disse que várias famílias desfavorecidas e severamente afetadas foram afastadas da lista de beneficiários da ajuda de 7.500 meticais (87 euros) por pessoa.

As queixas têm subido de tom e no último sábado cerca de 300 idosos saíram às ruas em Chimoio, capital provincial de Manica, em protesto contra a exclusão.

No final, amotinaram-se durante algumas horas na casa de um líder comunitário que acusam de ter forjado a lista de beneficiários, mas o visado fugiu e ainda não reapareceu.

A maioria dos idosos vive em condições económicas frágeis e viram a sua situação deteriorar-se com a passagem do ciclone Idai.

Ou seja, dependiam do pagamento do subsídio para reconstruir habitações precárias, muitas ainda em escombros, 19 meses após a intempérie.

“Nós todos sofremos com o ciclone Idai, mas há um grupo de pessoas que está a receber o subsídio e que não precisa. Os verdadeiros necessitados estão a ser excluídos de receber o valor” disse à Lusa Rosa Garicai, outra idosa.

O grupo acusa os secretários de um dos bairros mais pobre de Chimoio de terem provocado a exclusão, ao trocarem as listas para o acesso ao subsídio, beneficiando pessoas estranhas.

“Os secretários foram comprados, receberam dinheiro e trocaram os nomes. Há famílias com cinco pessoas na mesma casa,e todas recebem o subsídio. Nós que já estávamos inscritos não fomos avisados”, disse Rosa Garicai.

“O nome do meu marido constava da lista”, mas quando foi receber a ajuda disseram-lhe para “voltar no dia seguinte”.

“Quando regressou, na lista constava como se já tivesse recebido”, acrescentou outra idosa, Marta Júlio, que prometeu lutar pelo subsídio.

“Nós somos oito, na minha casa, participávamos em todas as reuniões de concertação para receber o subsídio, mas no dia do pagamento, o meu nome já não constava”, apontou Inês, uma outra idosa.

O delegado do INAS para as regiões centro e sul de Manica, Armando Tangai, contradiz as reivindicações e disse à Lusa que o subsídio está a ser pago.

Segundo referiu, foi feito um registo biométrico dos beneficiários, em duas fases, no ano passado, e o pagamento do subsídio foi concluído a 10 de outubro, mediante a presença dos beneficiários.

Dados do INAS na província de Manica indicam que 22.622 idosos recebem o subsídio social básico e, destes, 16.989 tiveram o apoio social direto no âmbito do Idai.

O ciclone Idai atingiu o centro de Moçambique em março de 2019, provocou 603 mortos e afetou a vida, até hoje, de dezenas de milhar de pessoas.