O britânico Surjan Singh, acusado numa investigação dos Estados Unidos da América como conspirador num esquema de fraude, subornos e branqueamento de capitais, está a testemunhar no tribunal de Nova Iorque, ao abrigo do acordo de cooperação que conseguiu com a Justiça norte-americana quando se declarou culpado, em Setembro.

No total, o suspeito terá recebido, neste esquema, 5,7 milhões de dólares (5,15 milhões de euros) numa conta bancária nos Emirados Árabes Unidos, através de vários pagamentos de remetentes relacionados com a empresa Privinvest.

Em testemunho no tribunal, Singh assumiu que recebeu quase 700 mil dólares a mais do que o combinado devido a “um engano” que o banqueiro não denunciou aos co-conspiradores do esquema.

Ex-director do Credit Suisse Global Financing Group, Surjan Singh recordou, na quarta-feira, o empréstimo organizado pelo banco Credit Suisse para a empresa moçambicana Proindicus que teve todas as aprovações para ser aumentado, em várias etapas no ano de 2013, de 372 milhões de dólares para 622 milhões (de 335,8 milhões de euros para 561,5 milhões de euros).

Presente em tribunal, Surjan Singh contou que o seu antigo chefe Andrew Pearse lhe perguntou um valor de recompensa pelo papel de influenciar as decisões dentro do Credit Suisse, ao que Singh pediu cinco milhões de dólares (4,5 milhões de euros).

Este dinheiro era um pagamento “à parte” para Surjan Singh quando, em colaboração com o chefe Andrew Pearse, do Credit Suisse, e com o negociador Jean Boustani, da empresa Privinvest, o projecto Proindicus assumiu mais “upsizes” (aumentos, em tradução livre).

A revelação do “engano” de 700 mil dólares surgiu quando a equipa de acusação do Governo dos Estados Unidos da América mostraram os extractos bancários de uma conta “off shore” detida por Surjan Singh nos Emirados Árabes Unidos.

A procuradora questionou se “falou deste engano a alguém” e se “alguma vez tentou devolver o dinheiro a mais”, a que Singh respondeu que “não” e acrescentou que “talvez tenha sido por ganância”.

O conspirador disse que a condição era criar uma conta bancária com sede nos Emirados Árabes Unidos para receber cinco milhões de dólares em várias tranches, de vários remetentes.

Para isso, Surjan Singh recebeu, em 2013, um visto de residência e de trabalho falsos para os Emirados Árabes Unidos, patrocinados por uma empresa subsidiária da Privinvest.

Os extractos dessa conta bancária detida por Singh em Abu Dhabi mostram depósitos vindos de vários remetentes, entre Setembro de 2013 e Março de 2014, com um valor de quase 5,7 milhões de dólares.

O acordo de cooperação com a Justiça norte-americana obrigou Surjan Singh a entregar 5,7 milhões de dólares ao Governo dos Estados Unidos da América antes do início dos depoimentos em tribunal.

Singh declarou-se culpado de conspirar para cometer o crime de lavagem de dinheiro. A cooperação com a Justiça prevê que, se disser toda a verdade nos depoimentos pedidos, os Estados Unidos retiram outras acusações que Singh enfrenta.

O caso está relacionado com as garantias prestadas pelo anterior executivo moçambicano, entre 2013 e 2014, a favor de empréstimos de 2,2 mil milhões de dólares (dois mil milhões de euros) para as empresas Ematum, MAM e Proindicus.

A justiça moçambicana e a justiça norte-americana consideram que parte desse dinheiro foi usado para o pagamento de subornos a cidadãos moçambicanos e estrangeiros.

Lusa