O antigo Presidente egípcio Mohamed Morsi, que morreu na segunda-feira em tribunal, foi enterrado ontem, no Cairo numa cerimónia discreta e sob alta vigilância, depois de ter passado seis anos na prisão.

Algumas organizações de defesa dos direitos humanos pediram a realização de um inquérito sobre a morte do ex-presidente, de 67 anos, detido desde a sua destituição, em Julho de 2013, por Abdel Fattah al-Sissi, na altura líder do exército e actualmente presidente do Egito.

A imprensa egípcia relata hoje o acontecimento de forma minimalista e alguns jornais nem sequer mencionam que Mohamed Morsi foi chefe do Estado durante um ano, entre 2012 e 2013.

Morsi morreu durante uma sessão em tribunal, onde estava a ser julgado por “espionagem”, tendo desmaiado quando estava a falar há 20 minutos de forma enérgica, relatou a televisão estatal.

“Foi transportado para o hospital, onde morreu”, disse uma fonte judicial citada pela cadeia televisiva Al-Jazeera.

Morsi tornou-se o primeiro Presidente democraticamente eleito do Egito em 2012, após a rebelião da Primavera Árabe em 2011 que terminou com o regime autocrático do Presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.

Em Julho de 2013 foi deposto, na sequência de protestos massivos e um golpe de Estado militar.

O funeral foi feito durante a noite, num bairro cercado pela polícia, que verificou todos os veículos que passaram nas proximidades.

Nenhum jornalista pode aceder ao cemitério, situado perto do local onde, em Agosto de 2013, um confronto violento entre as forças de segurança e partidários de Mohamed Morsi causou cerca de 800 mortos.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, foi o primeiro dirigente a reagir à morte de Morsi, com quem manteve laços muito próximos durante a sua breve presidência.

“Que Alá conceda ao nosso mártir, ao nosso irmão Morsi, a sua misericórdia. Que a alma do nosso mártir descanse em paz”, declarou Erdogan, responsabilizando “os tiranos que o conduziram à morte ao metendo-o na prisão e ameaçando executá-lo”.

A Amnistia Internacional defendeu ainda na segunda-feira que a morte de Morsi “levanta sérias questões” e pediu “uma investigação imparcial, completa e transparente sobre as circunstâncias da sua morte, assim como as condições da sua detenção e o seu acesso a cuidados médicos”.

Também na segunda-feira, a organização não-governamental Human Rights Watch pediu uma investigação sobre o acesso à assistência médica e aos alegados maus tratos sofridos ao longo dos anos por parte do ex-presidente do Egito.

O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, cuja próxima sessão começa em 24 de Junho, deve estabelecer uma investigação sobre as graves violações aos direitos humanos no Egito, incluindo os maus-tratos generalizados nas prisões do país e sobre a morte de Morsi, apontou a Human Rights Watch (HRW) em comunicado.

O movimento islâmico palestiniano Hamas — que nasceu a partir da organização Irmãos Muçulmanos – também se pronunciou na segunda-feira, referindo estar de luto.

“Lamentamos o ex-Presidente egípcio Mohamed Morsi, que morreu segunda-feira à noite depois de uma longa luta ao serviço do Egito, do povo e especialmente da causa palestiniana”, declarou o Hamas em comunicado.

A organização Irmãos Muçulmanos acusou as autoridades egípcias de terem levado a cabo um “assassínio lento” e assegurou que Morsi vivia em muito más condições desde que foi preso, em 2013.

DN