Quase 900 mil doses da vacina contra a cólera começam a ser distribuídas na quarta-feira (03) às populações da província de Sofala, no centro de Moçambique, afectadas pelo ciclone Idai.

As vacinas a distribuir foram reunidas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Duas pessoas – uma na Beira e outra no Dondo – morreram desde domingo devido à cólera, que, segundo as autoridades moçambicanas, afecta 1.428 pessoas, a maioria na Beira.

A distribuição das vacinas deverá arrancar na cidade da Beira e em distritos estratégicos onde se prevê que haja maior número de ocorrências, como Buzi, Dondo, Nhamatanda e Mutua, um processo que estará sob gestão do Ministério da Saúde.

De acordo com o director nacional de Assistência Médica de Moçambique, Ussene Isse, além dos postos de saúde, as equipas de saúde vão escalar pontos estratégicos com maior concentração de pessoas como mercados, escolas, quartéis para a realização das vacinas. Desta acção espera-se que sejam administradas vacinas a 884 mil pessoas, incluindo crianças a partir de um ano de idade – numa altura em que o total de pessoas afectadas pelo ciclone e cheias ronda 1,3 milhões.

Eficácia acima de 80 por cento

Noutras campanhas realizadas no país nos últimos três anos com a mesma vacina ficou “demonstrado” que “protege mais de 80% das pessoas” que a tomam, explicou à agência de notícias Lusa Ilesh Jani, director-geral do Instituto Nacional de Saúde.

A acção visa travar a doença típica da época das chuvas, mas que desta vez está a ter uma propagação muito acima do normal por causa do ciclone Idai.

O número de novos casos tem crescido de dia para dia, mas as organizações de saúde moçambicanas e internacionais envolvidas no combate têm conseguido curar 94% dos casos. Como resultado, há oficialmente 79 pessoas doentes.

A cólera é uma doença que provoca fortes diarreias, que é tratável, mas que pode provocar a morte por desidratação se não for prontamente combatida – sendo causada, em grande parte, pela ingestão de alimentos e água contaminados.

A administração da vacina é considerada fundamental pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para travar a cólera, pelo que vai haver dois tipos de postos de vacinação para tentar chegar a toda a população pretendida.

“Vamos ter pontos fixos ao nível das unidades sanitárias e centros de acomodação e brigadas móveis nos locais de maior concentração como escolas e mercados”, acrescentou Ilesh Jani.

“Estamos a trabalhar para apoiar o Governo, com outros parceiros, para vacinar a população para que possamos conter a epidemia de cólera”, afirmou Matshidiso Moeti, directora regional para África da OMS, na sequência de uma visita à Beira.

Para expandir a resposta de emergência no terreno, a OMS destacou uma equipa de 40 especialistas, incluindo epidemiologistas, técnicos de logística e especialistas em prevenção de doenças.

Sensibilização e tratamento das águas

Ao mesmo tempo, decorrem campanhas de mobilização social ao nível das comunidades.

A vacina cria imunidade aproximadamente uma semana após ter sido tomada e bloqueia ainda a transmissão ao nível do trato gastrointestinal.

Além da vacinação, as equipas no terreno, no centro de Moçambique, estão a investigar a qualidade das fontes de água nas comunidades.

“Primeiro, é preciso providenciar água potável e estamos a trabalhar nisso desde o segundo dia. O segundo ponto, claro, é a vacina. A terceira questão é o tratamento das pessoas com cólera, especialmente as crianças. Tudo isto requer a mobilização das comunidades – têm de estar cientes do que é a cólera, têm de se proteger da cólera e têm de procurar o tratamento quando a doença é identificada”, sublinha Jean Benoit Manhed, líder da equipa de resposta de emergência da UNICEF.

“Sabemos que um dos principais veículos de transmissão [de cólera] é a água contaminada. Temos equipas no terreno a recolher amostras de pontos de água nos bairros mais afectados para análise em laboratório”, adianta, por sua vez, Ilesh Jani.

As fontes onde for detectada cólera serão vedadas e deverão ser fornecidas alternativas à população.

Há igualmente equipas a trabalhar no restabelecimento de sistemas de tratamento de água e na distribuição de produtos de purificação.

DW