A polícia zimbabueana, armada com AK-47, deteve hoje Evan Mawarire, um padre e ativista, na sua casa, em Harare, no quadro de uma ofensiva policial contra a onda de protestos generalizados originada pelo aumento do preço dos combustíveis.

Mawarire, que saiu da sua residência na capital do país com uma Bíblia debaixo do braço, foi o organizador de uma vaga de protestos em 2016, que na altura se alastrou também a todo o Zimbabué, contra a gestão do então Presidente, Robert Mugabe.

“Alegam que ele incitou à violência através do Twitter e de outras redes sociais no centro de negócios da capital”, afirmou Beatrice Mtetwa, advogada de Mawarire, citada pela Associated Press (AP).

Os incidentes violentos multiplicam-se em todo o país, que enfrenta o terceiro dia de protestos contra um aumento de combustíveis que torna a gasolina no Zimbabué a mais cara em todo o mundo, de acordo com o portal GlobalPetrolPrices.

Esta é onda de violência mais forte desde os protestos que se seguiram às eleições em agosto último, que causaram a morte de seis pessoas.

O principal operador de telecomunicações do Zimbabué, Econet, enviou mensagens de texto aos seus clientes anunciando que foi forçado pelo Governo a fechar o serviço de internet. “A questão está para lá do nosso controlo”, argumentou.

A polícia zimbabueana está a levar a cabo outras detenções.

De acordo com o porta-voz do Movimento para a Mudança Democrática (MDC, oposição), Nkululeko Sibanda no Twitter, a “liderança do partido” foi também detida. “Isto apenas aprofunda a crise política no país”, escreveu Sibanda.

O Presidente zimbabueano, Emmerson Mnangagwa, encontra-se em viagem fora do país, num périplo longo que inclui uma paragem no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, para tentar captar investimento estrangeiro, e é o vice-presidente, antigo chefe de Estado-Maior do Exército, Constantino Chiwenga, quem está a dirigir a resposta das autoridades à onda de violência.

Oito pessoas, de acordo com a Amnistia Internacional, foram já mortas desde o passado dia 14, quando a polícia disparou contra uma multidão. O Governo zimbabueano dá conta de apenas três mortos, incluindo um polícia, que terá sido apedrejado até à morte por protestantes em fúria.

As manifestações antigovernamentais foram classificadas como “terrorismo” pela ministra zimbabueana da Informação, Monica Mutsvangwa, em afirmações à televisão estatal na noite de terça-feira. Os protestos estão a ser “bem coordenados” pela oposição, acusou.

A Associação de Médicos do Zimbabué para os Direitos Humanos anunciou através de um comunicado que 107 pacientes receberam cuidados médicos na tarde de terça-feira, incluindo ferimentos de bala na cabeça. A maior parte dos casos foram tratados em Harare e na segunda maior cidade do país, Bulawayo, acrescentou a organização.

A greve geral de três dias convocada pela Conferedação Sindical do Zimbabué chega hoje ao fim. A greve foi convocada pela confederação de sindicatos, que considerou “uma loucura” o aumento do preço dos combustíveis anunciado por Mnangagwa no sábado.

O argumento de Mnangagwa para a multiplicação dos preços da gasolina em 2,5 vezes assentou na esperança de reduzir o consumo e os tráficos associados à desvalorização da moeda. Com o aumento, o preço médio de um litro de gasóleo cifra-se nos 3,11 dólares (cerca de 2,73 euros) e o de um litro de gasolina nos 3,33 dólares (cerca de 2,92 euros).

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