As lideranças religiosas presentes no seminário nacional sobre Prevenção e Combate aos Casamentos Prematuros repudiaram as práticas de pastores de determinadas congregações de culto que incentivam o uso da rapariga virgem para o pagamento de dívidas contraídas pelos respectivos pais.

Nos debates do tema o “Papel da Família e da Sociedade em geral na Prevenção e Combate aos Casamentos Prematuros”, ocorridos esta segunda-feira, último dia do primeiro seminário nacional que está a decorrer na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, Albino Mussuei, Secretário-geral do Conselho das Religiões de Moçambique, COREM, lançou um forte ataque aos que classifica como agentes “satânicos” infiltrados no ministério de Deus.

Mussuei disse não haver em nenhum dos 73 livros da bíblia (46 no Antigo Testamento e 27 no Novo) ensinamento de que uma rapariga virgem serve para o pagamento de dívidas, perdão de pecados ou então bênção divina pela oferta.

Não existe em nenhuma parte da bíblia versículo que autoriza o homem a usar uma filha para o pagamento de um serviço prestado pelo pastor da congregação que os seus pais frequentam”, disse o secretário-geral do COREM.

A prática é bastante comum mesmo entre os praticantes da medicina tradicional, particularmente nas zonas recônditas do país, devido a incapacidade financeira das famílias.

No país, segundo o Inquérito Demográfico de Saúde (IDS) 2011, uma em cada duas raparigas casa-se antes de atingir os 18 anos de idade; destas 14 por cento casam-se antes de atingir os 15 anos. Dados do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano mostram que a desistência das meninas da escola se acentua a partir de 12 anos de idade.

Face a realidade, ainda endémica em grande parte do país, a fonte disse haver urgência no sentido de intensificar a educação da própria sociedade sobre os direitos humanos, valores que são quase que desconhecidos pelas milhares de famílias moçambicanas.

Mussuei apontou, a título de exemplo, que, ao nascer, todas as crianças (rapazes e raparigas) têm direitos que devem ser incondicionalmente respeitados, porém o que acontece é exactamente o contrário, porque são as próprias famílias que fomentam algumas das práticas que minam o futuro das crianças.

O líder religioso apontou, por outro lado, o empoderamento e a capacitação em matérias de ocupação vocacional como medidas que podem contribuir para reduzir os elevados níveis de vulnerabilidade económica que afecta as suas famílias e, em certa medida, propiciam os desvios sociais que inquietam a sociedade.

Entre as intervenções nos debates, foi partilhado um caso chocante sucedido na província central da Zambézia, onde uma congregação religiosa teve de ser encerrada porque um grande universo das fiéis, em particular as raparigas, estava grávida e as lideranças envolvidas no abuso.

A congregação teve de ser encerrada, e os fiéis interessados em praticar o culto orientado a enveredar por outras correntes, cujos rituais não chocam o código moral e crença da sociedade moçambicana.

RM