Não que se trate de um estudo realizado e concluído, mas é comum, nos últimos dias, ouvir algumas pessoas reclamarem de outras se terem tornado “anti-sociais” por causa do facebook e de outras redes sociais.

Curioso é o facto de estas redes terem surgido com o objectivo de aproximar (ou reaproximar) pessoas que se encontram distantes, porém, por vezes é sensível um efeito contrário (distanciar pessoas que se encontram próximas).

Vários artigos foram esboçados na tentativa de perceber este fenómeno, mas nenhum chegou a uma explicação plausível sobre o que realmente acontece, pois é um assunto em constante actualização.

É neste sentido que a equipa da MMO saiu à rua para, numa abordagem específica, dar o seu parecer sobre o impacto das redes sociais na vida das pessoas.

O nosso objecto foi um grupo restrito, composto por adolescentes e jovens, na sua maioria estudantes, visto que é o grupo que mais adere ao mundo virtual.

Para começo de conversa, os nossos entrevistados foram unânimes em considerar que as redes sociais possuem dois lados – obviamente, um positivo e outro negativo.

Um dos maiores problemas decorrentes das redes sociais é a possibilidade de criar um vício incontrolável.

Para Íngride, aluna da 10ª classe na Escola Secundária Francisco Manyanga, as redes sociais oferecem a possibilidade de aprender coisas novas num curto intervalo de tempo “por incrível que pareça, no facebook há muita facilidade de aprender mais sobre o mundo exterior, temos a possibilidade de estabelecer contactos com pessoas de culturas diferentes e estar a par dos acontecimentos em todo mundo”, disse.

Entretanto, Íngride salienta a possibilidade do mundo virtual tornar-se uma maldição, se tratado de maneira ilimitada “Algo que tenho observado actualmente é que as pessoas relacionam-se mais e melhor virtualmente. Isto torna-se mau na medida em que, num grupo de amigos próximos fisicamente, apareça alguém a dar toda a sua atenção às conversas do whatsapp, aos posts dos amigos no facebook, ignorando todo o resto”.

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Denise também é aluna da 10ª classe, na Escola Secundária Francisco Manyanga. É tão apegada às redes sociais que nem durante as aulas fica offline “eu não consigo parar de teclar. Quero estar sempre a par das conversas dos meus amigos virtuais. Da aula ‘pesco’ o que posso, o que não posso deixo estar. É um mundo fascinante e lá temos uma educação diferente, actual e muito positiva”, referiu.

Apesar disso, Denise considera-se uma aluna aplicada, a considerar pelas notas positivas que tira nos testes “estou sempre online, aliás, eu só fico offline quando acabam os megabytes. Consigo prestar atenção em alguma matéria. Sei lá, acho que é um teste sobre as minhas capacidades ao qual voluntariamente me submeto. Por vezes o professor fala algo que acho interessante e logo partilho com meus amigos virtuais e nos pomos a comentar sobre isso e assim acabo aprendendo mais e melhor”.

De acordo com o Professor Doutor João Miguel, docente de Sociologia na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM), este fenómeno é tão normal quanto foi o surgimento da televisão.

“As tecnologias vêem sempre acompanhadas por duas vertentes – a negativa e a positiva. Obviamente que se forem encaradas de maneira irracional podem ser prejudiciais e as redes sociais não fogem à regra”, realçou.

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Para o académico, as redes sociais estão a ser usadas de forma abusiva, principalmente por adolescentes e jovens, pelo que, as entidades competentes, sobretudo na área da educação, deviam estabelecer formas de regular e controlar a utilização.

“A forma como os jovens vêem usando as redes sociais pode comprometer o seu futuro e consequentemente o futuro do país. O facto, por exemplo, de um aluno estar presente fisicamente na aula e completamente ausente em espírito, dando toda atenção aos chat’s, representa um atraso para a educação”, afirma João Miguel, acrescentando que “um mecanismo que limite este uso faz-se necessário, principalmente nas instituições de ensino”.

Outro facto preocupante decorrente das redes sociais, principalmente para pais e encarregados de educação, é a proliferação de casos criminais iniciados em relacionamentos virtuais.

Porém, há quem acredita que nas redes sociais é possível conhecer a verdadeira personalidade de alguém.

“A criminalidade está em todo lado, reconheço. Mas se no mundo real existem pessoas honestas, é possível que existam também no mundo virtual” considera Marta Beúla, estudante de linguística na Universidade Eduardo Mondlane “eu por acaso já perdi a conta do número de amigos que tenho no facebook, a maioria dos quais nem conheço pessoalmente”.

Beúla justifica a sua enorme lista de amigos virtuais da seguinte maneira “acho que hoje em dia as pessoas trocam mais impressões virtualmente. Elas gostam muito de estar nas redes sociais, se calhar por haver mais espaço de debate”.

Já Daniel Gentil, apesar de possuir igualmente uma enorme lista de amigos, tem rígidos critérios de selecção “só aceito e endereço pedidos de amizades a pessoas com quem tenho mais de 10 amigos em comum. Não basta que me peça amizade só porque achou o meu perfil interessante”.

João Miguel considera que é possível, sim, estabelecer contactos reais nas redes sociais, mas alerta para o cuidado em relação à idoneidade de algumas pessoas que por vezes só querem praticar o mal.

“É possível, sim… mas também é preciso ter cuidado, porque já ouvimos histórias de pessoas que só se aproximam com más intenções, histórias essas que envolveram violações sexuais e até assassinatos”.

Nestes casos, o sociólogo considera que os adolescentes compõem o grupo mais vulnerável, pois, sem discriminar, deixam-se levar por conversas de pessoas que nem conhecem, pelo simples facto de apresentarem um perfil aparentemente popular e que revela um alto posicionamento social.

De acordo com o nosso interlocutor, este problema não termina na esfera académica, mas chega igualmente ao seio familiar.

“As pessoas dão tanta atenção às conversas virtuais e toda informação lá patente, que nem percebem quanto tempo despendem. Com os olhos presos ao ecrã do computador ou telemóvel, é possível encontrar dois amigos separados por cinco metros, a conversarem virtualmente”.

A dependência criada pela vontade de estar online leva pessoas a ignorarem as prioridades e muitas vezes a distanciarem-se do grupo em que estão inseridas (fisicamente), tornando-se mais activas no mundo virtual e quase em “estado vegetal” no mundo real.