Depois do mau momento assinalado em 2006, início/aquando da Crise Financeira Mundial, o negócio de sucata teria resistido à ditadura do capital e continua a ser o meio de subsistência de milhares de famílias moçambicanas, nas zonas urbanas e rurais, de Maputo.

Embora seja mais lucrativo para o revendedor final, este negócio tem registado, a cada dia que passa, maior adesão, principalmente dos jovens.

Jonas Suavey, casado e pai de dois filhos, dedica-se a este negócio há pouco mais de dois anos. Diz que ficou a saber da sua existência através de amigos e alguns vizinhos que também “labutavam” nele. De lá para cá, a sua rotina passa por levantar-se antes do sol raiar e partir em busca de metal para vender em alguns estaleiros de ferro-velho.

Este homem, que antes trabalhava como guarda-nocturno, segredou ao MMO, que esta tarefa tem seus prós e contras. “Não é fácil, pois tudo parte de uma procura, que praticamente, vai da matina até o anoitecer e nem sempre sabemos qual é o metal mais precioso e em que momento o é. Outro factor é o transporte da carga que colectamos e a distância que temos de percorrer até ao local de venda. Difícil também não é, pois há muito metal espalhado por aí, que até posso afirmar que o pão nos é sempre garantido. O que se quer é dedicação, pois isto exige muito sacrifício”, Revelou Jonas.

A sua maior fonte de recolecção localiza-se na lixeira do Hulene, onde recolhem variados tipos de metal, tais como: ferro, bronze, latão, alumínio e outros. Actualmente presta-se à recolha de latas de refrigerantes e bebidas alcoólicas e energéticas, compostas de alumínio, pois de momento é o que está a dar.

Por cada quilograma de lata arrecada 10 meticais e mensalmente consegue vender pouco mais de uma tonelada, ou seja, a razão de dez mil meticais. “Este valor ajuda-me bastante, pois para além de custear as despesas básicas do meu lar, consigo suprir as necessidades escolares dos meus filhos”, disse.

Jonas declarou ainda que o facto de existirem muitas pessoas a executar o mesmo comércio não o preocupa, pois cada um tem as suas próprias estratégias de maximização de lucros e o mais importante é estar actualizado com relação aos preços aplicados pelos locais de compra e revenda.

Jonas (1)

Limetal Vulcano – Uma indústria social

Localizada no bairro do Chamanculo “D”, na avenida Gago Coutinho, que separa o Chamanculo do bairro do Aeroporto, na cidade de Maputo, a Limetal Vulcano é uma empresa que tem acolhido gente que, como Jonas Suavey, colecta metal para comercializar. Poder-se-ia definir esta relação por ”fornecedor-comprador”:.

Trata-se de uma empresa com cerca de 40 anos, virada à compra e venda de metais ferrosos e não ferrosos e ao processamento e transformação de sucata em matéria-prima.

Rui Paulino, gestor da empresa e presidente da Associação dos Sucateiros de Moçambique (ASSUMO), reconhecida como pessoa jurídica em 02 de Outubro de 2009, explica que devido às especificidades particulares do negócio, existe uma rotatividade com relação ao metal mais procurado pois este depende das necessidades do mercado internacional.

“Nós compramos peças de viaturas, chapas de zinco, alumínio, baterias danificadas e tudo passa por uma posterior transformação. Temos uma fábrica na Matola que se presta a esse fim. Agora, com as condições que o mercado apresenta, optamos por um sistema de filtração, pois alguma sucata não tem colocação no mercado e não podemos arriscar em comprar para reter”, explica Rui Paulino.

O gestor da Limetal Vulcano defende que este negócio tem ajudado muito, não só aos membros da comunidade do Chamanculo, mas também a muitas pessoas provenientes de outros distritos municipais, tanto que quando a sua empresa está em crise as pessoas ficam inquietas, pois automaticamente também “caiem”.

Este gestor dá muita importância à comunidade, sobretudo a circunvizinha. Aliás, reconhece que que esta desempenhou um relevante papel para a sua empresa, na resistência aos cortes decorrentes da Crise Financeira Mundial.

“Quando comecei a trabalhar aqui, vendo o aperto no qual a empresa se encontrava, percebi a necessidade de envolver a comunidade nas nossas realizações. Foi daí que criei a concepção de indústria social, que engloba aspectos como ajuda mútua, companheirismo, caridade e todas as componentes que permitam um ambiente social harmonioso”, disse Paulino.

Para ele, o povo é uma máquina que, com instrução e acompanhamento, pode representar a maior valia para o desenvolvimento de qualquer instituição em particular e do país em geral. “Antes de qualquer acção, procurei inteirar-me sobre como atingir o sucesso e logo entendi que a resposta não poderia vir de nenhum outro lugar, senão da comunidade. Por isso estou ligado ao Conselho Consultivo do bairro, onde conheci pessoas com uma visão progressista e evolutiva, que ensinaram-me que o crescimento saudável é colectivo e ocorre gradualmente. Até atingirmos o estágio em que estamos, houve muita luta, mas o sucesso é notório pois houve igualmente muita gente envolvida no processo”, referiu.