O antigo banqueiro do Credit Suisse Surjan Singh disse, na quarta-feira, como testemunha num tribunal de Nova Iorque, ter sido “demasiado leal”, quando guardou segredo de “pagamentos inapropriados” em negócios ligados às dívidas ocultas de Moçambique.

Surjan Singh afirmou que o também banqueiro do Credit Suisse Andrew Pearse lhe contou, em 2013, ter negociado “pagamentos inapropriados” de dois milhões de dólares com o arguido Jean Boustani, negociador da empresa Privinvest.

Singh lembrou a relação profissional e de amizade que mantinha há 15 anos com Andrew Pearse, quando Pearse confidenciou ter pedido dois milhões de dólares a Boustani para reduzir a subvenção que a empresa Privinvest tinha de pagar ao banco Credit Suisse num contrato de empréstimo.

Em 2013, o projecto moçambicano Proindicus arrancou com um empréstimo de 350 milhões de dólares para a Privinvest fornecer serviços e produtos à zona costeira de Moçambique.

Nesse empréstimo, organizado pelo banco Credit Suisse, a Privinvest iria receber directamente o dinheiro e tinha de devolver uma subvenção de 49 milhões de dólares ao banco.

Surjan Singh recordou que Andrew Pearse disse a Jean Boustani que a Privinvest “não tinha negociado bem” e ofereceu uma descida da subvenção, para 38 milhões de dólares, em troca de um pagamento de dois milhões de dólares para enriquecimento pessoal.

No depoimento de quarta-feira, Surjan Singh admitiu ter guardado segredo sobre estes acordos indevidos que o seu chefe estava a fazer discretamente em nome do Credit Suisse.

“Eu era muito leal, talvez demasiado leal” disse a testemunha, depois de admitir que escondeu uma informação importante às comissões responsáveis pela aprovação de empréstimos do Credit Suisse.

“Misturei a lealdade à instituição com a lealdade ao meu chefe”, acrescentou.

Segundo o depoimento de Singh em tribunal, Jean Boustani recusou uma proposta de um outro homem, chamado Adel Afiouni, idêntica à de Pearse para reduzir as subvenções devidas pela Privinvest ao Credit Suisse a troco de um pagamento para uso pessoal.

O ex-dirigente do Credit Suisse Global Financing Group Surjan Singh admitiu ainda ter ajudado Andrew Pearse nos cálculos para a redução da subvenção devida pela Privinvest em 11 milhões de dólares.

Singh confessou também ser culpado de esconder informações relevantes, a nível interno no grupo financeiro, para que o projecto da Privinvest em Moçambique recebesse um empréstimo de 622 milhões de dólares, com garantia do Governo de Moçambique.

Dos 350 milhões de dólares inicialmente previstos, o projecto da Proindicus em Moçambique obteve vários aumentos com ajuda do “lobby” de Singh.

A testemunha disse ter cedido às pressões de Pearse e Boustani para que o Credit Suisse aprovasse as alterações ao empréstimo organizado para a zona marítima pertencente a Moçambique.

Após o empréstimo inicial em Fevereiro de 2013, a Proindicus obteve, em Agosto, um aumento de 132 milhões de dólares, e em Novembro foram adicionados outros 118 milhões de dólares.

Para estes empréstimos, o Credit Suisse procurou investidores internacionais para financiar 622 milhões de dólares.

Segundo a acusação norte-americana, o empréstimo sindicado afectou investidores dos Estados Unidos, que pagaram quantias ainda por devolver.

O Governo norte-americano escreveu na acusação que “a Proindicus nunca conduziu operações significativas ou gerou receita significativa e entrou em incumprimento em relação aos pagamentos do empréstimo em 21 de Março de 2017”.

Surjan Singh admitiu ter recebido 5,7 milhões de dólares da Privinvest pelo papel na aprovação de transacções irregulares pelo Credit Suisse.

As restantes acusações que pesam contra Singh, que se declarou culpado de conspiração no crime de branqueamento de dinheiro e está a cooperar com a Justiça norte-americana, vão ser retiradas.

O caso está relacionado com as garantias prestadas pelo anterior executivo moçambicano, entre 2013 e 2014, a favor de empréstimos de 2,2 mil milhões de dólares para as empresas Ematum, MAM e Proindicus.

A justiça moçambicana e a justiça norte-americana consideram que parte desse dinheiro foi usado para o pagamento de subornos a cidadãos moçambicanos e estrangeiros.

Lusa