O cientista político Alexander Noyes defendeu que a intervenção militar musculada em resposta aos ataques armados em Cabo Delgado, norte de Moçambique, arrisca fazer escalar a ameaça e criar o próximo Boko Haram.

Especialista em questões de segurança e violência extremista em África e nos Balcãs, Alexander Noyes é formado em política pela Universidade de Oxford, Reino Unido, com um mestrado em Estudos Africanos.

Cientista político na organização sem fins lucrativos RAND Corporation, Noyes colabora também com o blog LawFare, onde em Setembro assinou, em parceria, um artigo sobre os riscos das operações militares de contraterrorismo naquela região moçambicana.

No mesmo artigo, Alexander Noyes deixa a questão: Estará Moçambique a criar o próximo Boko Haram? numa alusão ao grupo ‘jihadista’ que actua na Nigéria e cuja acção causou mais de 20 mil mortos e dois milhões de deslocados numa década.

Em declarações à agência Lusa, a propósito da passagem de dois anos do início dos ataques na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, Alexander Noyes responde à pergunta do artigo com um “ainda não”, mas deixa alertas.

“A actual abordagem de mão pesada do Governo é susceptível de levar a uma escalada da ameaça em vez de a neutralizar”, considerou.

Por isso, defendeu o especialista, “é necessária uma nova abordagem mais abrangente” do ponto de vista do Estado de direito e da governação.

“Os actores regionais e internacionais poderiam oferecer-se para formar e profissionalizar as forças de segurança moçambicanas, instando o Governo a respeitar os direitos humanos, a seguir o devido processo, a permitir o acesso dos jornalistas a Cabo Delgado e responsabilizar os membros das forças de segurança por abusos passados”, disse.

Alguns distritos da província de Cabo Delgado são alvo de ataques de grupos armados desde há dois anos, havendo relatos de violência quase todas as semanas.

De acordo com números recolhidos pela Lusa, a onda de violência já terá provocado a morte de pelo menos 250 pessoas, entre residentes, supostos agressores e elementos das forças de segurança.

As autoridades responderam com o reforço da resposta militar, mas os elementos das forças de defesa e segurança moçambicanas destacados para Cabo Delgado são oriundos de vários pontos do país e muitas vezes nem sequer falam a mesma língua dos residentes, o que dificulta as relações com as populações.

Os ataques ocorrem numa região onde operam várias multinacionais que irão explorar as reservas de gás natural nos próximos anos.

Apesar da informação escassa sobre os autores dos ataques, Alexandre Noyes subscreve a tese de que os atacantes terão ligações ao grupo al-Sunnah wa Jamaah (ASWJ) da Somália.

O grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico tem anunciado desde Junho estar associado a alguns destes ataques, mas autoridades e analistas consideram pouco credível que haja um envolvimento genuíno do grupo terrorista nos ataques.

“Sabemos que alguns membros parecem ser da Somália, Tanzânia e Sudão, mas o norte de Moçambique é um entreposto comercial e de migrações na região e, por isso, a multinacionalidade dos seus membros não é surpreendente, nem deve ser tomada como um sinal de que o ASWJ é um grupo islamita transnacional”, referiu.

O especialista apontou “a propensão para a violência contra civis” como uma marca do ASWJ e cita dados do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) para adiantar que “mais de 80% dos ataques do grupo foram dirigidos contra civis”.

Alexander Noyes, que trabalhou na U.S. Security Governance Initiative da Casa Branca e no Departamento de Defesa do Centro de Estudos Estratégicos para África, defendeu, por outro lado, que é necessário um diálogo com as comunidades para acalmar tensões e promover a discussão sobre “a distribuição justa da riqueza proveniente do ‘boom’ da exploração de gás natural”.

“O empobrecido norte de Moçambique precisa dos esforços focados no desenvolvimento. As multinacionais que operam na região podem ter um papel e ser encorajadas a envolverem-se com as comunidades locais através de programas de responsabilidade social e práticas laborais justas”, disse.

“Podem também usar a sua influência para pressionar o Governo na direcção certa”, acrescentou.

Isto porque Alexander Noyes acredita que a religião não é o único factor na origem do crescimento da revolta.

“Os esforços de recrutamento do ASWJ podem beneficiar do sentimento de frustração de muitos dos residentes locais quando confrontados com a possibilidade de a riqueza resultante dos recursos naturais da região não beneficiar as suas populações”, apontou.

Alegados abusos cometidos pelos seguranças das multinacionais, disputa de terras, desemprego jovem generalizado e altos níveis de desconfiança do Governo, são outros factores a ter em conta, segundo Noyes.

Dois anos passados sobre os primeiros ataques, Alexandre Noyes vê a situação a piorar e sustenta que “devido à gravidade do problema”, Moçambique deveria considerar pedir ajuda.

Para o futuro, Alexander Noyes estima que se a repressão continuar “a ameaça vai crescer e disseminar-se pela região e pelo país”, mas sustenta que se o Governo parar com a repressão, atender as queixas das populações e optar por uma abordagem mais abrangente poderá “atenuar a ameaça e caminhar para uma paz sustentável”.

Lusa