Não passaram semanas e aconteceu o incidente de T3. Há, portanto, problemas graves com a nossa Polícia que, num primeiro momento, dizem respeito a quem de direito, isto é às estruturas policiais, incluindo o Ministério do Interior, o Ministério da Justiça, a Procuradoria da República e tantas outras instâncias. O problema principal é o da falta de respeito pelos cidadãos. Mas será que a Polícia que temos é fundamentalmente diferente de nós mesmos? Duvido.
A violência da nossa Polícia ganha contornos reais, sobretudo, nos relatos que são feitos pelos nossos jornais. O problema, porém, é que muitos destes relatos são problemáticos do ponto de vista jornalístico. Uma ronda por notícias que reportam aspectos desta violência demonstra isto claramente. Por exemplo, um aspecto que salta logo à vista é a forma como a imprensa pública e a imprensa privada representam a violência policial. Enquanto os primeiros primam por uma linguagem neutra e defensiva, os últimos representam-na de forma consistentemente negativa usando para o efeito uma linguagem que até mereceria o rótulo de difamatória. Dois exemplos para ilustrar.
Num artigo com o título “Bairro T3: Detido polícia que matou chapeiro”, publicado no jornal “Notícias” no dia 23 de Março deste ano, o repórter escreve sobre o “agente da Polícia que disparou mortalmente contra o motorista…”. O motorista “encontrou a morte…”, um dos agentes “alvejou-o a tiro na cabeça…”. O artigo termina com a citação do depoimento do porta-voz da Polícia que diz que “a comissão de inquérito apurou que houve má actuação dos agentes que recorreram à violência…”. Há uma atitude muito defensiva neste relato que apresenta os “factos” da forma mais neutra possível. Lê-se este artigo e fica-se com a impressão dum incidente infeliz que está a receber a devida atenção por parte de quem de direito. Na verdade, a forma como a reportagem está construída e, acima de tudo, como ela termina, transmite a ideia de que se tratou de algo excepcional – e que deve ser tratado dessa maneira – havendo para o efeito mecanismos próprios que já foram engrenados.
Sobre o mesmo caso o jornal “Savana” de 22 de Março do mesmo ano escreve num artigo com o título “Agentes da PRM assassinam chapeiro” algo completamente diferente. O artigo refere que, segundo residentes, esta “foi a terceira vez que agentes da Polícia afectos àquela esquadra mata(ra)m cidadãos indefesos com recurso a armas de fogo”; à semelhança do jornal “Notícias”, o “Savana” também refere que o motorista “encontrou a morte”, mas continua escrevendo que “os agentes da PRM (…) sem piedade (meu sublinhado) de imediato abriram fogo (…). Depois do acto macabro (meu sublinhado) perpetrado pela Polícia…”. O artigo refere ainda que “populares do bairro indignados com a situação foram se amotinar junto à esquadra, à busca dos autores do crime…”. Aqui é evidente um tipo de construção da mesma história que coloca a Polícia claramente no banco dos réus com recurso a uma linguagem muito adjectivada e emocional.
Jornal Noticias/ Savana















