Dos 589 moçambicanos repatriados da África do Sul, na tarde de ontem (11), 140 passaram a noite no centro de trânsito de Mangwaza, em Moamba, província de Maputo. Todos eles são criminosos que cumpriram parte das suas penas e beneficiaram de indulto.

As suas calças estão rotas. A pele, por sinal queimada pelo sol, está muito escura. O cabelo, despenteado ou em forma de dreads, são os primeiros aspectos que chama atenção. Em filas, eles passam pelo processo de desinfecção que é constante no centro de trânsito de Magwaza, em Moamba, província de Maputo.

Afinal, são moçambicanos que cumpriam pena por cometimento de vários crimes na África do Sul e que, beneficiaram, de um indulto presidencial do Governo sul-africano. Ao todo, chegaram no país, 589 repatriados, na tarde de domingo e destes 449 foram submetidos ao rastreio do novo coronavírus e não tendo apresentado nenhum sintoma da doença foram direccionados às suas províncias de origem.

140 Repatriados passaram a noite no centro de acomodação e cada um deles, senão todos eles, tem um episódio de crime cometido na vizinha África do Sul por contar.

Roque Cossa tem 37 anos de idade e é natural de Maputo. Em 2012, o jovem decide abandonar o negócio de venda de roupa num dos mercados da capital e migra, ilegalmente, para a vizinha África do Sul.

“Fui preso na África do Sul por roubo e depois disso fui julgado e condenado. Após cumprir a minha pena, disseram que não me queriam mais na África do Sul e trouxeram-me a Moçambique”, contou Roque Cossa, um dos moçambicanos repatriados da África do Sul.

Sem uma ideia clara do que fazer na África do Sul, não demorou que no mesmo ano Roque Cossa, juntamente com os seus amigos, começassem a assaltar residências e lojas, “espetáculo” que viria a terminar em 2015, ano em que foi deito e condenado a seis anos de prisão. Entretanto, ele cumpriu cinco até beneficiar do indulto presidencial.

“Quando lá cheguei, encontrei-me com os meus amigos que me influenciaram o comportamento e meteram-me no roubo, sendo que alguns foram presos comigo. Roubávamos roupas, laptops…foi com isso que me encontraram”, explicou o repatriado.

À semelhança de Roque Cossa, tantos outros moçambicanos beneficiariam do perdão de penas de Cyril Ramaphosa. Tal é o caso de Calatra Alfredo, natural da província de Inhambane, que foi à busca de melhores condições de vida. Ele até entrou por vias legais naquele país, mas o seu visto de permanência expirou e não tive o cuidado de legalizar.

“Ao nos trazerem ao país, disseram voltem à vossa pátria porque agora há lockdown. Há muito tempo estão presos. Já falamos com o vosso Presidente para que voltem à casa porque há muito tempo sofriam aqui na cadeia, mas o vosso Presidente não tinha aceitado vos liberar” avançou Calatra Alfeu, um dos repatriados da África do Sul.

Mesmo na cadeia, Calatra sentiu os efeitos do lockdown e descreve a situação como sendo crítica naquele país, incluindo para quem está nas celas. Porque “diferentemente de Moçambique, ainda que tenhas cumprido a sua pena, não aceitam lhe dar a liberdade porque não tens casa aonde vão lhe direccionar até que se faça um acordo com o país de origem para o repatriamento”

Foram perdoadas as suas penas, mas nem por isso os moçambicanos desvalorizam aquele país e não escondem a sua vontade de lá voltar. Aliás, para eles, a vida é melhor na República sul-africana.Depois do lockdown, irei tratar o passaporte e voltar para África do Sul porque a minha esposa e meus filhos estão naquele país”, disse um dos repatriados, num tom carregado de convicção.

E enquanto pensam em voltar para África do Sul, estes repatriados vão recebendo a assistência por parte do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades que já montou 83 tendas no centro de trânsito em Moamba.

“Quando as pessoas passam por um centro de acomodação, nós temos a refeição quente que são servidas três vezes ao dia e no momento da partida foi providenciado um kit de cereais e legumes, em parceria com os nossos parceiros”, esclareceu Higino Rodrigues, do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades.

E um dos parceiros, é a associação de caridade IZU CHI que, basicamente, deu kits alimentares sendo que cada um “é composto por 20kg de arroz, 5kg de feijão, 1kg de amendoim, 2kg de sal e uma manta”, enumerou Érica Criovanste da associação de caridade IZU CHI.

A previsão é que os repatriados que ainda estão no centro de trânsito sejam direccionados para suas províncias ainda esta semana