O que até há pouco era apenas um discurso de intenção, tornou-se realidade na comunidade anglicana dos Libombos: três mulheres entram no sacerdócio e dividem o altar com os homens.

Cento e vinte e cinco anos depois da sua criação, a Diocese Anglicana dos Libombos abriu, ontem, uma nova página da sua história, com a ordenação das primeiras três mulheres para funções pastorais.

Cerca de três décadas depois de uma decisão através da qual os anglicanos, ao nível mundial, abriram as portas para o fim do sacerdócio apenas masculino, Joana Chilengue, Lina Maria dos Santos e Fatucha Rosemary tornaram-se, ontem, as primeiras diaconisas anglicanas.

Trata-se de uma decisão histórica, através da qual a Igreja Anglicana alinha-se ao movimento global da valorização e inclusão da mulher na liderança e que, segundo o Bispo dos Libombos, Dom Carlos Matsinhe, é uma onda que veio para ficar.

“É um marco muito grande na valorização da mulher, mas também na questão de equidade de género que a Bíblia prega e nós também pregamos. E faltava, de facto, esta questão de termos em pé de igualdade homens e mulheres o poderem servir a Deus no altar”, avaliou o Bispo dos Libombos.

A onda da inclusão do género no sacerdócio anglicano iniciou há quatro anos, quando as primeiras mulheres foram admitidas a fazer seminário, depois de longos anos de reflexão sobre o momento para avançar com a implementação da decisão, que já tinha sido tomada pelo sínodo.

“Ao nível da África Austral, a decisão de ordenar mulheres foi tomada há 28 anos, só que cada diocese tem a prerrogativa de admitir a ordenação das mulheres no momento que acha exacto e nós estivemos, durante os últimos anos, a fazer uma reflexão e, em 2015, o nosso sínodo acabou chegando à conclusão de que já era momento de abrirmos o altar para as mulheres”, explicou D. Carlos Matsinhe, no final da cerimónia de ordenação.

As três mulheres, de um grupo de quatro diáconos ordenados (o quatro do sexo masculino), receberam a autoridade para dirigir a vida da igreja, com uma missão específica de dar atenção aos mais necessitados, nomeadamente, “os pobres, fracos, doentes e isolados”. “Elas já são ordenadas e já têm capacidades para servir a igreja”, frisou D. Carlos Matsinhe.

A histórica cerimónia desta segunda-feira foi antecedida de uma missa de acção de graças, que marcou a passagem de 40 anos de sacerdócio de três figuras da Diocese dos Libombos, uma das quais o actual bispo.

“Vamos continuar a encorajar as mulheres a entrarem no sacerdócio. As que hoje ordenámos têm capacidades para servir a igreja e, de facto, no nosso seminário, temos agora nove mulheres e certamente que essas serão as próximas neste caminho de ordenação, que é um caminho irreversível e que será um ganho para a igreja no geral. Vamos continuar a ajudar quem opta por seguir este caminho, que é bom para a igreja e é bom também para a sociedade no geral”, afirmou Dom Carlos Matsinhe, Bispo Diocese dos Libombos.

CCM destaca crescimento da consciência do género

O Conselho Cristão de Moçambique (CCM) saúda o passo dado pelos anglicanos e considera que é uma medida que vem valorizar a mulher moçambicana.

De acordo com Felicidade Chirindza, secretária-geral do CCM, é positivo que uma igreja tradicional como a Anglicana se junte a um movimento que ao nível das igrejas protestantes já avançou.

“Durante séculos, a igreja teve muitas mulheres com muitos dons e com chamamento, mas ainda não tinha chegado a hora em que, realmente, a igreja entendesse que a mulher também pode ser ordenada ao ministério”.

“O CCM começou a ordenar as primeiras mulheres a pastoras na década de 1980 e, agora, a Igreja Anglicana, pela primeira vez, ordena as suas diaconisas. Estamos muito felizes, porque na família está a multiplicar o número de igrejas em que a mulher faz parte daqueles que Deus chama”, concluiu.

“É uma honra para mim e ao mesmo tempo um desafio muito grande. Tendo a certeza de que sou uma das primeiras mulheres da diocese, isso requer um empenho muito grande, auto-entrega, para fazer o ministério prosperar, manter credibilidade dentro da diocese e atingir aquilo que são as expectativas da própria diocese.  O meu seminário começou há quatro anos e não foi fácil. Os desafios foram enormes, mas, graças a Deus, consegui concluir e começo agora uma nova missão ao serviço da igreja”, disse Fatucha Rosemary, diaconisa.

“O sentimento neste momento é de uma graça de Deus que está sobre mim. Na verdade, nunca sonhei em chegar a esta posição, mas só Deus é que sabe como é que estou aqui. Isto significa que Deus me trouxe aqui no mundo para lhe servir e isto é mais uma responsabilidade, porque eu venho servindo a igreja desde o baptismo e sempre estive pronta para responder a qualquer actividade que a igreja me pudesse dar e assim continuarei, porque na verdade o chamamento divino quando se manifesta é mesmo para seguir até ao fim”, afirmou Joana Chilengue, diaconisa.

O País