Destaque Escassez de água abala Maputo

Escassez de água abala Maputo

A procura pela água tornou-se uma verdadeira jornada para os moradores de alguns bairros de Maputo. Uma jornada de todos: adultos e crianças. São pessoas que estavam habituadas a ter água a jorrar nas torneiras todos os dias, mas já não têm o mesmo privilégio há três semanas.

Todos os dias acordo 3h da madrugada, para tentar obter água e, mesmo assim, não consigo nada. Não saí nada. A promessa de dias alternativos não está a ser cumprida”. O desabafo é de Maria do Céu, de 56 anos, que reside no bairro do Aeroporto.

Encontramo-la junto a outros moradores, em busca de água. Eram 5h da manhã e reclamava de ainda não ter água suficiente para responder as necessidades básicas da sua família, como cozinhar e tomar banho. Maria do Céu aguarda pela sua vez para encher um bidão de 20 litros, na rua, numa ligação de tubo da água fornecida pela empresa Águas da Região de Maputo, que foi vandalizada pelos moradores.

Bem próximo a enchente onde Maria do Céu e outros moradores tiram água, um outro grupo capta o líquido precioso, gota a gota, num outro tubo desmontado pelos moradores. Um cenário que se repete em vários pontos do bairro. Um cenário repete-se em vários pontos do bairro.

Nós sabemos que isto não é correcto, mas não temos alternativas. Precisamos de água pelo menos para nossas crianças tomarem banho para irem à escola. Precisamos de água para beber, para cozinhar, não temos outra opção. Sabemos que a culpa não é do Governo, é a falta de chuva, mas o que vamos fazer?”, questiona Maria.

Por volta das 6h da manhã, a água pára de chegar aos tubos. Jovens amarram os tubos e tapam as covas. A maioria das pessoas que aguardavam pela água dos tubos desmontados pelos populares não conseguem água, inclusive, Maria do Céu.

Nesta fase, restam duas alternativas: pagar quatro ou cinco meticais, em algumas casas onde se usa água dos furos, ou em outras poucas da rede que por vezes jorra água nas torneiras ou então pagar dois a três meticais pela água dos poços.

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Por falta de tempo e de dinheiro, a maioria das pessoas recorre à segunda opção. “Todos os dias, nós tiramos água daqui. Usamos para beber, cozinhar e lavar, e como estão a ver, aqui perto tem uma força. Madrugamos para tirar água da torneira, mas não saí”, disse Mércia, uma moradora do bairro do Aeroporto.

E quem tira água dos poços também precisa ter paciência, é que devido à procura, por vezes debate-se com situações em que o poço fica praticamente esgotado e precisa aguardar até que a água encha novamente.

Famílias já fazem racionalizações gota a gota

Sem água nas torneiras, algumas famílias vêem-se obrigadas a fazer racionalizações de água, gota a gota. Mónica tem 35 anos, vive no bairro de Hulene B e faz parte destas estatísticas. A sua família têm 12 membros e o desafio desta mulher é gerir apenas 85 litros de água por dia, assegurando água para cozinhar, tomar banho e outras necessidades domésticas.

Racionalização complicada, mas impossível de contornar. É que Mónica diz “não ter condições de gastar dinheiro, nem recipientes para armazenar água para além do tempo que levaria à espera que chegasse a sua vez de conseguir água”.

Gota a gota, a dona de casa consegue cumprir tarefas como: lavar a louça, os alimentos que devem ser confeccionados e até mesmo separar água para cozinhar. Quando questionamos como gere a higiene e uso da casa de banho, particularmente, com as crianças, seis, a resposta foi: “dizemos os nossos filhos para não irem a casa de banho com frequência e quando vão, pedimos que façam apenas necessidades menores”.

Ao fim do dia, a maioria das actividades já haviam sido cumpridas. Começou a escala dos banhos e restava apenas metade de um bidão de 25 litros, ou seja cerca de 12,5 litros para o banho de seis adultos e seis crianças. E não são apenas as famílias que sofrem os efeitos das restrições, alguns centros de saúde já se ressentem da falta de água, particularmente em zonas onde a água da rede não saí há mais de duas semanas.

O País

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