Nascido em 20 de maio de 1929, na Ilha de Moçambique, norte do país, Marcelino dos Santos interessou-se pela causa da independência de Moçambique muito antes de se juntar à Frelimo, movimento criado em 1962.

Marcelino dos Santos, que morreu na terça-feira de doença, aos 92 anos, viveu tão intensamente a sua ligação à causa nacionalista e à Frente de Libertação de Moçambique que afirmou: “Não sou da Frelimo, sou a Frelimo”.

Nascido em 20 de maio de 1929, na Ilha de Moçambique, norte do país, Marcelino dos Santos interessou-se pela causa da independência de Moçambique muito antes de se juntar à Frelimo, movimento criado em 1962. Durante a sua passagem por Lisboa (1948-1951) destacou-se, na Casa dos Estudantes do Império e no Centro de Estudos Africanos, como militante anticolonialista.

Após abandonar a capital portuguesa por volta de 1951, devido à impiedosa perseguição movida pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), rumou para Paris, onde estreitou a relação com o nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade.

Os dois estabeleceram vínculos de amizade e camaradagem com quase todos os dirigentes dos movimentos que conduziram as antigas colónias francesas de África à independência.

Marcelino dos Santos exerceu um papel crucial na mobilização de muitos intelectuais franceses, que escreveram a Salazar a exigir-lhe a independência para as colónias e a libertação imediata do nacionalista, e mais tarde primeiro Presidente da República Popular de Angola, Agostinho Neto, que estava preso.

Com Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral e Aquino de Bragança, Marcelino dos Santos criou em 1961 a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), tendo sido eleito seu secretário-geral em Rabat, capital de Marrocos.

Ainda nesse ano, Marcelino dos Santos adere à União Democrática Nacional de Moçambique (Udenamo) e escreve os estatutos desta organização. A Udenamo participou mais tarde na fusão das três organizações que resultaram na fundação da Frelimo.

Redigiu os estatutos da Frelimo, tendo-se tornado chefe das Relações Exteriores e chefe do Departamento de Orientação Política. Nessas funções, foi determinante no reconhecimento internacional da Frelimo como representante legítimo da causa da luta do povo moçambicano pela independência e na definição da estratégia de luta política e armada para o alcance desse objectivo.

Em pleno auge das guerras contra o colonialismo português, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto e Amílcar Cabral, histórico nacionalista do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) foram recebidos pelo papa Paulo VI no Vaticano, em 01 de julho de 1970, provocando a ira do Governo português.

Com o assassinato do primeiro presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane, em 3 de fevereiro de 1969, Marcelino dos Santos fez parte do triunvirato escolhido para a liderança do movimento até à escolha de uma nova direcção. Na sequência do afastamento de Uria Simango do triunvirato, devido a divergências internas, Samora Machel foi eleito presidente da Frelimo e Marcelino dos Santos vice-presidente.

Após a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975 e a assunção da chefia do novo Estado moçambicano pela Frelimo, Marcelino dos Santos foi nomeado, em 1977, ministro para a Coordenação Económica e posteriormente secretário da Comissão Permanente da Assembleia Popular (depois Assembleia da República). Em 1986, assume a presidência da Assembleia Popular, cargo que exerce até à investidura da primeira Assembleia da República multipartidária, em 1994.

Fiel aos princípios em que acreditava e marxista-leninista assumido, sempre se referiu à Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), hoje principal partido da oposição, como “bandidos armados”, em alusão ao envolvimento da organização na guerra civil que durou 16 anos até à assinatura do Acordo Geral da Paz.

Marcelino dos Santos negou publicamente cumprimentar o falecido líder da Renamo Afonso Dhlakama e declarou várias vezes o seu desencanto com a viragem para o capitalismo da “sua” Frelimo. Debilitado pela doença, aparecia raramente em público nos últimos tempos, deslocando-se com um andarilho. Além de político, era um entusiasta da poesia, tendo assinado vários poemas com os heterónimos ‘Kalungano’ e ‘Lilinho Micaia’.