O diretor da Chatham House Alex Vines afirmou hoje à Lusa que a situação em Cabo Delgado “é preocupante”, “continua a deteriorar-se” e “mostra que o governo de Moçambique não tem o controlo em alguns municípios”.

O território tem sido palco de ataques de grupos radicais, suspeitos de estarem ligados a uma seita islâmica, causando mais de 100 mortos em ano e meio.

“A situação em Cabo Delgado é preocupante. Continua a deteriorar-se. Há um crescimento dos ataques, agora também a veículos. É um novo desenvolvimento preocupante. Até agora não eram conhecidos ataques a transportes civis nas estradas”, sublinha o diretor do Programa para África do Royal Institute of International Affairs (RIIA), ou Chatham House, em Londres.

“Portanto, isto é muito preocupante. Não é por coincidência que os investidores internacionais, o Governo moçambicano e os parceiros internacionais de Moçambique estão cada vez mais preocupados com o que está a acontecer”, sublinha Alex Vines, que foi o anfitrião na Chatham House no início do mês de uma reunião onde participaram especialistas e representantes de petrolíferas que se preparam para iniciar a extração de gás liquefeito na região.

“Isto mostra que, realmente, o governo de Moçambique não tem o controlo sobre o que está a acontecer em algumas municipalidades a norte de Cabo Delgado”, continua.

De acordo com o especialista britânico, “ao que tudo indica”, trata-se de “uma seita militante armada em Cabo Delgado. Portanto, o núcleo da questão é definitivamente religioso, e as outras questões estão ligadas a isto”.

“A investigação a que tivemos acesso sugere que esta questão tem vindo a emergir já há bastante tempo, e tornou-se visível com os ataques no final de 2017”, afirmou.

No entanto, “o que mais me preocupa é que o número de ataques parece estar a aumentar e, ainda que não haja provas de existir um grupo grande de indivíduos envolvidos nos incidentes, o facto é que a violência parece estar [também] a alastrar-se”.

“A deterioração da situação está a preocupar toda a gente cada vez mais”, revela Alex Vines, explicando que o “interesse tremendo” em Cabo Delgado por causa das reservas de gás natural motiva “um acréscimo da atenção” de “um conjunto de países”.

A resposta das autoridades moçambicanas — mas também das empresas com interesses na região — à questão da insegurança na região deve, no entender do diretor da Chatham House, combinar um misto de ingredientes e passa muito para lá de uma “solução exclusivamente militar”.

“Qualquer resposta — defendeu – implica um envolvimento do Estado numa relação com as populações muito mais subtil, para além de uma aposta no desenvolvimento social”, defende.

Alex Vines fez ainda um apelo às autoridades moçambicanas no sentido de escolherem um caminho de “maior transparência e sentido de responsabilidade”.

“É claro que a divulgação de relatórios de organizações defensoras dos direitos humanos sobre a detenção de jornalistas não é um indicativo da melhor postura. A tentativa de desencorajar o escrutínio e a discussão sobre o que está a acontecer, as detenções arbitrárias, a inculcação de um medo cultural [entre a população] apenas afastará as pessoas da cooperação com o Governo e ajudará ao reforço do apoio dos militantes extremistas”, alertou o diretor da Chatham House.

Além disso, “alguns comportamentos das forças de segurança moçambicanas têm sido claramente contraprodutivos”, sublinha.

A população, segundo o especialista, enfrenta uma situação em que é vítima ao mesmo tempo das táticas dos militantes extremistas e da atuação das forças de segurança.

“As pessoas estão com muito medo”, resumiu.

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